Como pensar o método (segundo Descartes) a partir da noção de “pensar” como “caminhar”?

O raciocínio de Descartes é dividido em várias etapas, e cada uma delas corresponde a um estádio do saber, ou a um procedimento metodológico.

Assim, temos: a dúvida, o cogito, Deus, o mundo, o método, a ciência e a unidade dos saberes, e a técnica e a transformação do mundo.

O tema do método é aquele que se associa com mais frequência a Descartes e à sua filosofia. Ele chega mesmo a afirmar que para alcançar a verdade o método é algo necessário.

De uma forma simplista, o método consiste num conjunto de regras para o pensamento, submetidas aos princípios da ordem, de hierarquia e de evidência, e que podem, se observadas pelo espírito, conduzir-nos à verdade e ao conhecimento.

As regras do método são apresentadas na terceira parte do Discurso, parte esta que se dedica por inteiro à moral. Contudo, é aqui nesta terceira parte que o seu discurso se torna autónomo e se consagra na forma de moral provisória.

Apesar de ser utilizado o termo provisório, não é certo que Descartes tenha pretendido desvalorizar a sua importância. É provisória apenas porque toda a moral se deve abrir ao acto criador e renovador da liberdade humana. Nada do que é humano está terminado, pelo que moral provisória poderia representar essa abertura ao sentido criador e dinâmico da existência humana.

Quer as regras enunciadas formalmente na terceira parte, quer certas máximas morais em que o Discurso é fértil, têm um único objectivo: criar ao redor do pensador, as condições ideais à reflexão.

Outro aspecto da moral cartesiana, prende-se com o estoicismo.

Descartes vai considerar que só está ao nosso alcance aquilo que depende de nós. O ideal estóico é o ideal da auto-suficiência, o estóico, para evitar a escravidão, nada deseja do que lhe é exterior.

A imagem que Descartes utiliza no início da terceira parte é retirada da arquitectura e da construção. A dúvida, que é semelhante à demolição do alicerce de uma construção insegura e ruinosa, com vista a substituí-la por outra realmente segura, deve ser exercida com cautela. Se para construir é necessário demolir primeiro tudo o que ameace ruína, até não ficar pedra sobre pedra, teremos de salvaguardar um abrigo, um local provisório.  Para Descartes esta moral provisória é esse abrigo.

A primeira máxima da moral provisória diz respeito à vida em sociedade. O desejo de se manter afastado da vida mundana não transforma Descartes num eremita. Posto que o homem vive em comunidade, é necessário que se adapte às regras  do seu grupo. Metaforicamente temos logo aqui presente a ideia de não parar, de estar em constante movimento, para pensar, para crescer, independentemente do código moral pelo qual nos regemos é necessário sair do isolamento e estar em sociedade, em movimento, caminhar.

Este é o sentido da obediência a leis, costumes e religião do seu país, de que Descartes não abre mão.

E apesar da imensa variedade de leis e costume que Descartes irá encontrar durante as suas viagens, ele não se deixa duvidar da validade absoluta dos valores culturais, é necessário que, a bem de uma vida de calma reflexão, os aceite sem reservas.

A moral está à margem de dúvida, a moral está ao serviço de uma vida de investigação, um caminhar constante.

A moderação e a recusa de posições extremas são a maior garantia de segurança, já que a verdade raramente se encontra em extremos.

Mesmo na incerteza devemos decidir pelo que nos pareça mais razoável, mais equilibrado.

A segunda máxima é assim de ordem estritamente pessoal.

Estabelece que, uma vez tomada uma decisão num certo sentido, para o qual no momento nos sentimos mais inclinados, deveremos ser determinados e persistir nessa direcção. De certa forma é o mesmo que estar perdidos numa floresta. A solução não é parar (não tomar uma decisão), nem andar às voltas (mudar de uma decisão para outra). A única forma de alcançar algo, independentemente do que for, é definir uma direcção e seguir em frente, uma linha recta (manter-se com  a decisão tomada). Novamente a ideia de caminhar, de não parar. É preferível agir dentro do provável a não agir de todo. Na vida não há lugar para indecisões.

Se na primeira máxima encontramos sinais de um certo conformismo social, na segunda Descartes abdica da regra da evidência e admite que as decisões possam ficar pelo provável.

A terceira máxima é de inspiração estóica. Prescreve a necessidade de limitarmos o nosso desejo apenas àquilo que seguramente se encontra ao nosso alcance. Só o homem que eliminou do seu coração qualquer desejo ou qualquer paixão, só o homem espiritual e intimamente em paz consigo mesmo poderá aspirar à felicidade da vida reflexiva. A paz interior, onde não há desejos contraditórios, é uma condição dessa felicidade.

A ideia a ter em conta aqui é: se só os meus pensamentos são inteiramente meus, é ao conhecimento, ao saber, enfim à vida especulativa e ao trato com as ideias que devo consagrar todo o meu esforço. Se todos os bens exteriores me são, por igual, afastados, o melhor será abdicar de tudo o que possa perturbar a felicidade simples buscada e encontrada sempre no pensamento.

Ao fim de apresentar estas suas três máximas, da sua moral provisória, Descartes fala da superioridade da ocupação que escolhera para a vida: cultivar a razão e avançar no saber até onde fosse possível.

Ele próprio o confirma quando diz: “Ademais, as três máximas precedentes só se justificam pelo propósito que eu tinha de continuar a instruir-me…”.

Descartes encerra anunciando o seu regresso às viagens, não por desejo de evasão ou de querer adiar a sua tarefa, mas por vontade de variar constantemente os seus objectos de reflexão. Á boa maneira da moral estóica, adopta perante os acontecimentos que testemunha, uma posição de espectador desinteressado; nunca de actor ou participante. E passa cerca de oito anos, afastado e isolado de tudo e todos que o possam conhecer, apenas caminhando, pensando e aprendendo.

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