Tolerância, partindo de Hunyadi

 

 

Parafraseando Hunyadi, foi ele quem afirmou que:
A ideia de tolerância, não é tanto a de saber se há razões para não estar de acordo, mas sim a de com quem queremos constituir um mundo comum.

          Antes de podermos comentar o passo de Hunyadi, convém começarmos por compreender, de uma forma básica pelo menos, o que são a tolerância e a intolerância.

A primeira porque é o tema principal deste trabalho, a segunda porque sendo o seu oposto, acaba por estar relacionada e irá inevitavelmente ser mencionada ao longo deste discurso.

          A tolerância, do latim tolerare (sustentar, suportar), é um termo que define o grau de aceitação diante de um elemento contrário a uma regra moral, cultural, civil ou física.

Do ponto de vista da sociedade, a tolerância é a capacidade de uma pessoa, ou grupo social, aceitar outra pessoa, ou grupo social, que tem uma atitude diferente das que são a norma para si ou para o seu grupo. Numa concepção moderna é também a atitude pessoal e comunitária de aceitar valores diferentes daqueles adoptados pelo grupo a que pertencemos inicialmente.

          Por sua vez, a intolerância é uma atitude mental caracterizada pela falta da habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar opiniões diferentes. É o oposto da tolerância, como é óbvio, mas ao mesmo tempo, é mais profundo que isso.

Num sentido político e social, intolerância é a ausência de disposição para aceitar pessoas com pontos de vista diferentes.

A tolerância não tem necessariamente de significar a aceitação de algo, pode também significar discordar pacificamente; a intolerância contudo, já pode ser uma atitude negativa e hostil em relação às opiniões dos outros.

Se a intolerância existir devido ao preconceito, então irá eventualmente levar à descriminação (racismo, sexismo, anti-semitismo, homofobia, intolerância religiosa…).

          Com esta informação já é possível compreender a ideia essencial contida no passo de Hunyadi.

Ele compreende que é impossível todos termos a mesma opinião, estarmos todos de acordo ou querermos o mesmo.

A ideia essencial que pretende transmitir quando menciona tolerância, é a sua interpretação como discordância pacífica, “…não é tanto a de saber se há razões para não estar de acordo…”.

Aquilo que interessa para o autor, e na realidade, para todos nós, é a conciliação das nossas diferenças. É a necessidade de respeito e compreensão mútua. O meu vizinho irá ter opiniões e crenças diferentes das minhas, eu tenho de compreender e respeitar isso.

O mundo ideal, ou pelo menos, um mundo onde haja paz, não é aquele onde somos todos iguais ou pensamos da mesma maneira, é um mundo onde somos todos diferentes e respeitamos isso  – “…com quem queremos constituir um mundo comum.”.

Apesar das diferenças, o mundo em que vivemos é o mesmo. Partindo dessa ideia base, de partilharmos o mesmo espaço, devemos tentar viver em comum.

          Infelizmente, essa não é a situação em que nos encontramos.

E dentro deste tema, a intolerância religiosa continua a ser algo bem real e destrutivo.

          É a respeito desse tema que John Locke e Voltaire escreveram as suas obras, Carta sobre a tolerância e Tratado sobre a tolerância, respectivamente.

          Em pleno século XXI, ainda não somos capazes de ser tolerantes com as religiões uns dos outros, tolerância essa que durante algum tempo se pensou ser possível.

Para todos aqueles que dedicaram a sua vida à conciliação entre religiões, ou que realmente acreditaram ser possível, seria-lhes lamentável hoje perceberem que ainda estamos tão longe de o conseguir.

          Quando Locke escreveu a sua obra, o cenário histórico, político e social da Europa no seu tempo, estava marcado por inúmeros conflitos e tensões. Os conflitos religiosos constituem um desses elementos, que implicavam não só os indivíduos mas também as instituições (igreja, coroa e estado).

É nesse sentido que a Carta acerca da tolerância encontra a sua razão de ser.

Para ele, a tolerância entre os homens e as religiões era imprescindível para a emancipação do homem.

Contudo, as guerras constantes entre as religiões que não conseguiam superar as suas diferenças, impediam essa emancipação. Era preciso superar os interesses económicos que eram disfarçados por piedade, segundo ele: “…revelam mais propriamente a luta de homens para alcançar o poder e o domínio do que sinais da Igreja de Cristo.”.

Assim, fundamentado pelos evangelhos, Locke chama de monstros aos crentes que se mostram incapazes de entender que cada um tem direito à sua própria opinião.  Esta ideia para ele parece tão óbvia que chega a afirmar: “A tolerância para os defensores de opiniões opostas acerca de temas religiosos está tão de acordo com o Evangelho e com a razão que parece monstruoso que os homens sejam cegos diante de uma luz tão clara.”

E as palavras finais de Locke na sua obra deixam bem claro o porquê da discussão acerca da tolerância ainda hoje ser tão necessária:

“Enfim, para concluirmos, o que visamos são os mesmos direitos concedidos aos outros cidadãos. É permitido cultuar Deus pela forma romana (católica)? Que seja também permitido fazê-lo pela maneira de Génova. É permitido falar latim na praça do

mercado? Os que assim desejarem poderão igualmente falá-lo na igreja….”

          A ideia essencial que devemos retirar do seu discurso é a necessidade da distinção entre a comunidade política e a sociedade religiosa, a distinção e a separação radical entre as funções da Igreja e as do estado.

          Voltaire por sua vez, cria a sua obra como reflexão feita a partir do julgamento e conseguinte execução de Jean Calas.

O filho de Jean Calas, recentemente convertido ao catolicismo, suicidou-se. O seu pai, calvinista, é acusado do seu homicídio e executado publicamente num ritual macabro que ajudava a legitimar a intolerância, o ódio e a loucura de uma religião com demasiado poder.

          Um caso de intolerância religiosa flagrante que tornou as palavras de Voltaire em algo paradigmático para qualquer posterior discussão de intolerância/tolerância.

Várias vezes ao longo da obra, recorre a um optimismo irónico, para evidenciar como as coisas poderiam ser, se fossemos mais tolerante uns com os outros.

Deixa bem claro que o objectivo desta sua obra é demonstrar a realidade possível de convivência entre as diferentes religiões.

Para Voltaire a violência apenas serve para gerar mais violência. E se essa violência for fundamentada por religiões ela só vai escalar e aumentar, já que cada religião sempre irá querer reivindicar o estatuto da verdade só para si.

É uma obra que vai de encontro à de Locke em vários pontos, apesar de Voltaire só reter a recusa galicana ao poder dos papas de distribuir coroas.

A separação entre  a Igreja e o Estado na França nunca foi um dos seus objectivos. Advoga, ao contrário, uma subordinação da Igreja ao Estado: vê nisso um meio de garantir a tolerância.

Defende que a única solução para a intolerância é o seu inverso. Sem a tolerância a terra será devastada pelo fanatismo ou pelo menos sempre afligida por ele.

          Todos somos diferentes, e essas diferenças devem ser abraçadas e respeitadas.

Um casal precisa de respeitar as diferenças e opiniões do seu parceiro.

Precisam de discutir, mas chegando a um consenso, ultrapassam os problemas e seguem em frente.

Enquanto não compreendermos, como um todo, que é necessário aplicar essa capacidade a toda a humanidade nos seus múltiplos aspectos, a tolerância irá continuar a ser muito limitada, e a paz, inatingível.

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