Histórias de loucura normal #1

Acordo perdido e desnorteado sem saber onde estou. Olho em volta tentado localizar-me, mas é trabalho feito em vão, está demasiado escuro.

Rastejo em procura de uma parede, alguma espécie de superfície ou objecto suficientemente forte para ajudar o meu corpo miserável a levantar-se.

Encontro aquilo que me parece ser um sofá, ergo-me apenas para gritar um “Foda-se” enquanto mergulho em direcção ao chão.

Tenho a perna direita magoada, não consigo apoiar-me nela. Sinto o cheiro ferrugento a sangue…

Sento-me no sofá e ao lado encontro um candeeiro, acendo-o e olho em roda, estou em casa.

Ambiente fácil de distinguir. A minha máquina de escrever na secretária ganha pó devido à minha incapacidade para lhe voltar a tocar, há garrafas partidas pelo chão, e marcas na parede para onde as atiro. No centro da sala está uma mesa com louça suja e restos de comida, e no canto, um espelho destruído por já não conseguir olhar-me nos olhos sem sentir náuseas e desprezo.

E de alguma forma, este local degradante, este meu inferno pessoal, é o único local possível para mim.

Sinto-me confortável na minha depressão, a tragédia faz isso, muda perspectivas.

Não saberia o que fazer comigo se fosse feliz, nem consigo imaginar um mundo onde isso seria possível. Pessoas felizes metem-me nojo, são regra geral apáticos incapazes de qualquer espécie de compreensão honesta e sentida para o mal do mundo…

Dizem merdas inúteis como: Vai correr tudo bem, melhores dias virão.

Porque caralho é que haveria de correr tudo bem? O mundo é negro e todos nós caminhamos para o precipício.

Algures pelo caminho alguém meteu na cabeça que é suposto sorrir enquanto o fazemos. Otários ignorantes. Agarram-se a tudo e a todos para manter acesa essa esperança, como se houvesse algum significado na nossa existência.

Somos apenas macacos que se separaram dos outros macacos e viraram à esquerda no ramo da evolução. E aqui estamos nós, racionais e de alguma forma a achar que somos superiores.

A única diferença é que estamos cientes que vamos morrer, cientes que vamos perder todas as pessoas que algumas vez iremos amar, cientes que nascemos sozinhos e apesar de nos iludirmos com a ideia de companhia enquanto estamos vivos, morreremos sozinhos.

É tudo isso que a racionalidade oferece, nada mais, nada menos. Mas, há sempre aqueles que se agarram a bíblias, a religiões e a todo o tipo de tretas que lhes aqueça o coração. Algo que justifique a nossa presença neste berlinde azul.

Deixem-me em paz, a mim e à minha depressão, esse abraço negro e confortável que me faz chorar e embebedar todas as noites enquanto desmaio na esperança de não acordar no dia seguinte.

 

Que se fodam todos aqueles que acham que a felicidade é um pré-requisito para aqui estar. Estragava de bom grado o dia a qualquer um deles.

No meio do meu monólogo interior olho finalmente para a minha perna, não aguentando mais a dor que me faz sentir.

Levei um tiro. Uma espécie de compressa caseira tenta em vão estancar o sangue que insiste em correr.

É neste momento que reparo na arma que tenho na mesa de cabeceira. Mas que caralho fiz eu ontem à noite?

Alguém bate à porta e diz que é da polícia. Sorrio para mim por notar o quão prestável o mundo decide ser e responder imediatamente à minha questão.

Vão-se foder, agora não me apetece. – grito eu.

Insistem e batem novamente, ameaçando deitar a porta abaixo, justificam-no dizendo que podem entrar na minha casa e que têm um mandato para a minha captura.

Casa? Comprei isto com a minha esposa quando ela ainda era viva, mas não se pode chamar a isto de propriedade. Não agora, não sem ela. Não ao fim daquele filho da puta a atropelar e a tirar de mim e da minha vida.

Cabrão do caralho, bêbado de merda que se meteu atrás do volante incapaz de controlar o carro…a raiva que sinto por ele nunca irá desaparecer. Dava tudo para ter a coragem suficiente para o matar, para o tirar desta vida…mas nem para isso presto, inútil. Eu próprio me transformei em alguém que faria algo semelhante ou pior. No fundo, é bom que ela não esteja aqui para ver aquilo em que eu me tornei. E aquilo em que a casa dela, que cuidava com tanto amor, se transformou.

Neste momento os polícias arrombam a porta e entram, armas apontadas, gritam para eu me deitar com as mãos atrás das costas.

Um desses paneleiros diz que eu estou preso pelo homicídio de John e James Connor.

Não faço a mínima ideia de quem são, mas estou dormente demais para dizer outra coisa a não ser: E então?

Alguém me irá responder a isso eventualmente, entretanto já me estão a arrastar para o chão e a perda contínua de sangue faz-me desmaiar, sinto novamente a escuridão a rodear-me.

Passaram 6 meses desde então.

Fui julgado e considerado culpado. Connor, aparentemente, foi o filho da puta que matou a minha mulher. Afinal sempre ganhei coragem para o fazer, não sou tão inútil quanto pensava.

Devem ter-me achado um louco quando me contaram quem ele era no hospital e eu desatei a chorar e a rir.

Nem o facto de me dizerem que lhe deixei a mulher viúva me fez conter o sorriso. Cá se fazem, cá se pagam, se ela tiver problemas com isso que venha dar cabo de mim, a minha missão está feita.

Mas o estado poupou-lhe o trabalho, Washington felizmente tem a pena de morte. E ao fim de eu assassinar John em pleno restaurante juntamente com o seu irmão que era polícia, o júri não hesitou em condenar-me à morte.

Lamento o irmão de John, tentou vingar a morte de alguém que amava, respeito isso. E se estivesse sóbrio na altura possivelmente teria-o deixado acabar o trabalho, mas o álcool em mim achou melhor dar-lhe também um tiro nos cornos.

Agora aguardo eu a minha morte, sentir o doce veneno a entrar nas minhas veias e depois poderei finalmente descansar.

Já só tenho mais uns meses disto. Recusei qualquer hipótese de apelo. Eu sei o que fiz, aceito as consequências e não me arrependo de nada. Faria tudo novamente de bom grado e só tenho pena de ter demorado 5 anos para o fazer. Devia-o ter feito logo no dia a seguir a enterrar a minha mulher, e talvez assim não tivesse gasto tanto tempo a odiar-me.

Não bebo álcool desde que estou  na prisão, não tomo drogas, já li cerca de 20 livros durante este tempo e há muitos anos que não dormia tão bem.

Tenho possibilidade de ler mais uns livros, tenho uma cela só para mim, vou à rua uma hora por dia, estou sóbrio e dentro de pouco tempo irei morrer.

Afinal, é possível voltar a ser feliz.

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