A Rapariga no Comboio (2016)

Título Original
The Girl On The Train

Género
Mistério

Realização
Tate Taylor

Argumento
Erin Cressida Wilson

Elenco
Emily Blunt, Justin Theroux, Luke Evans, Rebecca Ferguson e Haley Bennett


Uma divorciada com problemas de alcoolismo vê-se envolvida numa investigação sobre uma mulher desaparecida que irá ter sérias repercussões na sua vida.


Em 2014 estreou um filme de mistério e crime, interessante, assustador e arrepiante.
Foi realizado com mestria por David Fincher, tinha um argumento conciso, coerente e bem conseguido de Gillian Flynn (que também escreveu a obra em que é baseado) e foi finalizado com interpretações maravilhosas por parte Ben Affleck e Rosamund Pike.

Tal como a obra The Girl On The Train escrita por Paula Hawkins tenta ser Gone Girl, o mesmo acontece com os filmes.
Mas tal como a obra, falha. Falha porque tal como Hawkins não é Flynn, Tate Taylor não é David Fincher.

Temos aqui uma história interessante, misteriosa e capaz de cativar o interesse, e acredito que algures no argumento estivesse um bom filme. Contudo, não foi esse o transposto para o ecrã.

Rachel, uma divorciada com problemas alcoólicos, é alguém que desistiu da sua vida, deixou de viver e apenas existe.

Na sua comuta diária para a cidade ela passar por várias casas, por vários locais, e então é fascinada pela vida dos outros, especialmente por Megan e Scott, aquele que é para ela o casal perfeito. O casal que vive agora ao lado da sua antiga casa, onde vivem agora o seu ex-marido com a sua nova mulher e a filha de ambos.

Quando Megan desaparece subitamente, Rachel toma como sua missão envolver-se na investigação e ajudar a procurar Megan. O que ela não sabe é que isto irá causar ondas de choque na vida de todos os envolvidos, especialmente na sua.

Como disse, é um filme com uma história que cria interesse, suspense e mistério, contudo foi contada num filme com fraca edição, confuso e trapalhão.

O filme tenta fazer com que o espectador se perca e nunca saiba realmente o que se está a passar, então, vai-nos contando a história de duas formas, primeiro através do ponto de vista de várias personagens e depois com flashbacks constantes.

O problema é que os recuos na história são tantos e tão violentos que muitas vezes nem sabemos que a história foi quebrada e voltámos atrás no tempo, foram várias as vezes em que eu só me apercebi do que tinha acontecido umas quatro ou cinco cenas à frente.Porque há alturas em que decidem colocar escrito no ecrã o tempo em que se passa o que vamos ver, outras não o fazem, isso cria uma falta de contraste e coerência que se torna incomodativo. Não é mistério, é apenas deixar o espectador perdido. E na vontade de querer ter um final surpresa, fazem com que se comece a perder o interesse na história, nas personagens e no que realmente aconteceu.

A forma correcta de contar isto seria apenas com as diferentes perspectivas das personagens, primeiro contavam o filme todo por uma personagem, depois recuavam e faziam-no novamente com outra, até chegar à altura em que teriam de unir todas as perspectivas finais e aí, juntos, o espectador e as personagens descobrirmos a verdade. Poderiam colocar um ou outro flashback mas sem a necessidade excessiva e confusa com que acontece.

Infelizmente, não foi essa a decisão que tomaram, e ficámos com um resultado que deixa muito a desejar.

As interpretações do filme, acabam também por ser relativamente fracas, com Emily Blunt a ser a única que merece destaque.

Emily é uma boa actriz, e já deu provas disso, recentemente em Sicario. Ela é sem dúvida o ponto alto deste filme, oferece uma prestação digna e forte, provavelmente boa demais para o filme que é. Apesar de haver uma parte ou outra em que acho que cometeu um pouco de overacting, mas isso também se pode ter devido ao ângulo em que a câmara estava e à intensidade que era requerida das suas expressões faciais.

Um ponto a favor do filme é o simbolismo que colocam em muitas das cenas. Ao estudar o cenário, e especialmente ao fim de ver o filme e saber a história e o seu final, é possível encontrar em objectos, plantas, cores e locais o simbolismo para a história.

O simbolismo mais óbvio é o comboio em si. Os comboios são um ponto forte deste filme. Estão no título, são o transporte que permite a Rachel fazer parte daquilo que é a vida das restantes personagens e consequentemente descobrir o que acontecera.
Ao mesmo tempo, demonstram repetição, ciclo interminável, expectativa, regularidade e velocidade violenta.
Torna-se difícil explicar pormenorizadamente o seu significado sem falar no final, mas considerem apenas que há pessoas que simplesmente não mudam. Mudam de ambiente, mudam de local, mas quem são mantém-se. Fixo e inalterável, tal como um comboio e o seu percurso. E tal com o comboio se apressa urgentemente para regressar para o local para o qual todos sabemos que ele vai, mais cedo ou mais tarde, também o nosso passado nos apanha, e mais cedo ou mais tarde, revelamos quem realmente somos. Inalteráveis.

Outro simbolismo forte é a presença do túnel. É uma localização importante para o filme, tendo em conta o que se vai desenrolar lá. Julgo que a escolha deste local não é por acaso, e representa a visão em túnel que é comum as pessoas alcoolizadas terem, algo que é comum na personagem principal de Rachel.

Para terminar, a melhor parte do filme: a cinematografia. Os cenários, a forma como foram captados, os ângulos, a urgência colocada em certas cenas, é realmente admirável. Charlotte Bruus, que já tinha trabalhado no filme A Caça com Mads Mikkelsen (e onde este tem a sua melhor prestação) sabe quando deve colocar cor, quando a deve retirar e acima de tudo, a velocidade da câmara e a forma como ela influencia o poder de uma dada cena.
Há paisagens que captadas por alguém de menor talento não teriam o poder e significado que conseguem acabar por ter neste filme.


Veredicto Final: 5/10

É um filme com uma história cativante e com um bom mistério.
Infelizmente devido a uma péssima decisão criativa, e à vontade de querer apanhar o espectador de surpresa em todos os instantes, entrega um produto confuso que destrói todo o interesse que há à volta do enredo.
Salva-se a cinematografia e uma prestação comovente de Emily Blunt.

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