Manchester by the Sea (2016)

Título Original
Manchester by the Sea

Género
Drama

Realizador
Kenneth Lonergan

Argumentista
Kenneth Lonergan

Elenco
Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler, Lucas Hedges e C. J. Wilson


Um tio fica encarregue de ser o tutor do seu sobrinho ao fim do seu pai falecer.


Lee Chandler (Casey Affleck) é forçado a regressar a casa para tomar conta do seu sobrinho (Lucas Hedges) ao fim do seu irmão (Kyle Chandler) morrer.
Sem aviso prévio é informado de que o seu irmão queria que fosse ele o tutor de Patrick, o seu sobrinho. Ao longo do filme, enquanto ele decide o que fazer, é demonstrado ao espectador através de vários flashbacks, o motivo que levou Lee a deixar Manchester e a afastar-se do seu passado.

Apesar de só estrear em Portugal este mês, é um filme de 2016, e por isso conta com 5 nomeações para os Globos de Ouro e, possivelmente, também será uma presença forte nos Óscares.

Kenneth Lonergan foi quem escreveu e realizou este filme, contudo não seria esse o plano inicial, e nem foi ele quem criou a ideia base.
Terão sido Matt Damon e John Krasinski quem abordaram Lonergan com a ideia para um filme sobre um homem que é forçado a regressar a casa ao fim da morte de um parente.

O plano inicial seria Lonergan escrever um guião e de seguida Matt Damon iria realizar e protagonizar o filme. Devido a Damon  estar em gravações para o “Perdido em Marte” isso originou conflito de disponibilidade, foi aí que Lonergan ficou também como director e com total liberdade para fazer o filme como achasse melhor, ficando Damon como produtor.
Acho sempre graça à forma como muitas vezes os elencos, directores e por vezes os próprios argumentos, dão voltas e voltas até chegar a nós um dado produto final.
Umas vezes chega algo melhor, outras, nem por isso.

Felizmente, Manchester by the Sea, é um daqueles casos em que todas estas coincidências tiveram como resultado final um filme de excelente qualidade.

O argumento de Lonergan, esteve a dada altura na “blacklist”, a lista de Hollywood onde se encontram os melhores argumentos por produzir.
E ao fim de ver o filme, é fácil compreender o porquê. Todas as personagens se encontram bem desenvolvidas, todas elas têm um propósito e um sentido, uma necessidade crucial para o filme.
O diálogo e desenvolvimento da história improvam de cena para cena, todo o drama, toda a dor e emoção é suportada por uma narrativa coerente e fluída, com uma humanidade extremamente real e honesta.

E é isso que me leva às prestações dos actores.
No que toca a representação, não há uma única falha a apontar. Desde o director da escola que apenas explica a Lee (Affleck) que Patrick (Lucas Hedges) não está na escola, mas sim no treino de hóquei, até ao próprio Lee, todos os actores trouxeram o seu melhor trabalho para o ecrã. E isso deve-se, lá está, ao trabalho fenomenal que Lonergan entregou com o argumento.

A melhor prestação do filme, e na minha opinião, do ano, é sem dúvida a de Casey Affleck.

Na minha publicação anterior, sobre as previsões para os Globos de Ouro, tinha-o escolhido a ele como provável vencedor na categoria de Drama. Escolhi-o sem ver o filme, apenas tendo em conta o que tinha lido e visto. Posso agora, sem dúvida alguma, afirmar que se houver alguma espécie de justiça, é ele quem o irá ganhar.
A brutalidade da sua prestação deixou-me arrasado, um destroço emocional.
Ao início será difícil compreender o porquê de Lee ser como é, e isso pode fazer com que algumas pessoas não se consigam relacionar com a personagem, mas quando é explicado o que aconteceu no passado, compreendemos perfeitamente o porquê de ele ser e se comportar daquela maneira.
Casey tem aqui o papel da sua carreira, ao fim de já surpreender antes no “Vista Pela Última Vez…“.

A sua prestação é tão honesta e dolorosamente linda, que não consegui desviar os olhos dele de cada vez que aparecia no ecrã, o que é praticamente durante o filme todo.
Há uma cena em particular que é simplesmente magnífica.
Lee pede para ir ver o corpo do seu irmão Joe (Kyle Chandler). Enquanto estão a retirar o corpo do frigorífico e a abrir o saco, Lee está à espera. Nesta cena, reparem nas mãos dele. Começa com as mãos esticadas ao lado do corpo, a tremer, de seguida coloca-as nas ancas, voltando a descer com elas logo de seguida, sem saber o que fazer ou como reagir. Este tipo de pormenores estão presentes ao longo do filme todo, e são este tipo de coisas que um actor menor não conseguiria dar a esta personagem. Sou grande fã de Matt Damon, mas ele não conseguiria entregar uma prestação com a mesma brutalidade emocional e dor, o único que poderia eventualmente conseguir fazer um trabalho semelhante em qualidade, seria Joaquin Phoenix.

Lucas Hedges, que interpreta Patrick, o sobrinho de Lee, tem aqui uma prestação que irá sem dúvida alguma catapultá-lo para a linha da frente de Hollywood.
É alguém que consegue equilibrar a dor com uma ligeira dose de humor durante todo o filme. Ele não é o elemento cómico, nem de perto, mas o alívio que consegue dar ao ambiente quando a sua personagem entra em cena é notório, apesar de subtil. Consegue jogar bem com a intensidade de Affleck e retribuir com uma espécie de dor mais controlada, enquanto oferece as típicas explosões de adolescente em desenvolvimento.
Há uma cena envolvendo um frigorífico, uma das mais fortes do filme, que fortalecem o seu talento e demonstram sem dúvida alguma que é um jovem actor que merece estar no radar durante o futuro.

Michelle Williams e Kyle Chandler, apesar de oferecerem papéis mais secundários e diminutos, conseguem também entregar prestações arrebatadoras no pouco tempo de ecrã que têm.
Williams, partilha a melhor cena do filme com Casey. Tão dolorosa e excruciante, como amorosa e necessária.
Kyle está no seu registo confortável de homem exemplar e de família, um papel que desempenha sempre de forma agradável e natural.

A realização de Lonergan e a cinematografia de Jody Lee Lipes complementam-se uma à outra de forma equilibrada. São simples, cruas e honestas.
Não tentam ser exageradamente trabalhadas ou editadas, tal como o tema do filme, são reais e humanas. Assim, para além de apanhar várias paisagens marítimas com uma luminosidade forte e bela, não esperem um trabalho exagerado de ângulos complicados.
Não é esse tipo de filme, e ainda bem.

O único defeito que tenho obrigatoriamente de apontar ao filme, é a banda sonora.
O ideal para este filme seria o silêncio, deixar as prestações falarem por si e os silêncios pairarem eternamente, demonstrando o óbvio desconforto que há em cada um deles.
A meter música, teria de ser algo calmo e baixo, algo que não quisesse chamar a atenção.
Infelizmente, esse não é o caso. A orquestra a que recorrem é demasiado alta e espalhafatosa, fora de tom com aquilo que a cena contém e impede o espectador de se relacionar com as personagens e com aquilo que elas querem transmitir.
Foram vários os momentos em que todos os elementos se encontravam em sintonia e deixavam bem claro o ambiente que se desenrolava no ecrã e a dor que eles sentiam, mas a música impedia-me de poder partilhar essa emoção.
Impedia-me de sentir a tristeza que o realizador e o resto da equipa pretendiam.
E para meu desagrado, são várias as cenas “arruinadas” por essa falha.

Não é filme que vá interessar a todos, é um trabalho realista sobre problemas e situações humanas, questões do dia-a-dia e de como nós lidamos com elas.
É um filme lento, com um desenvolvimento metódico e monótono, apesar do final mais apressado. E numa actualidade que está tão dessensibilizada para aquilo que é ser Humano, devido a super-heróis e explosões, pode tornar-se, infelizmente, algo aborrecido e desinteressante.
Mas deviam combater essa mentalidade, pois é um dos melhores filmes do ano, e merece toda a atenção e aclamação que lhe tem sido dada.
O final do filme poderá saber a pouco, mas em relação a isso, e sem querer estragar nada, deixo apenas a nota de que não é um filme de redenção, e nunca o tenta ser.


Veredicto Final: 9/10

É um trabalho magnífico de realizador/argumentista e elenco, em que todos deram o seu melhor para entregar uma história honesta, crua e dolorosa sobre aquilo que é viver e os horrores que por vezes temos de enfrentar.
Um filme com uma carga emocional que irá afectar o espectador, mas que merece com toda a certeza ser sentida.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s