Drive (2011)

Título Original
Drive

Género
Crime

Realizador
Nicolas Winding Refn

Argumentista
Hossein Amini

Elenco
Ryan Gosling, Bryan Cranston, Carey Mulligan, Oscar Isaac e Ron Perlman


Um misterioso mecânico e duplo de cinema, que faz alguns trabalhos para criminosos como condutor de fuga, vê-se metido em sarilhos quando decide ajudar o seu vizinho.


Drive é um thriller carregado de acção e suspense, que faz homenagem ao cinema de outrora, não só na forma como é filmado, mas na própria música e vibe neo-noir que o caracteriza durante toda a sua duração.

Quando começou inicialmente a ser produzido tinha como realizador Neil Marshall (A Descida) e o actor principal era Hugh Jackman (O Terceiro Passo). Caso fosse esse o projecto a ser desenvolvido, o filme que nos teria chegado seria algo muito diferente.
Contudo, quando Jackman saiu do projecto e Gosling foi contratado, deram-lhe a possibilidade de escolher o realizador com que queria trabalhar.

Aqui aconteceu outro pormenor interessante, que poderia uma vez mais alterar o rumo do filme. O encontro inicial que Ryan teve com Nicolas, correu mal. Este último estava doente e delirante e por isso pouco ou nada disse durante todo o jantar.

Então, quando Ryan ia a conduzir para o deixar em casa, desapontado com o encontro e sem dúvida a colocar de lado a hipótese de trabalharem juntos, REO Speedwagon começou a tocar na rádio, e Nicolas começou a cantar e a chorar.
Quando Ryan questionou o que estava a acontecer Nicolas apenas respondeu:
“É sobre isto que o nosso filme vai ser. Um homem a conduzir e a ouvir música.”

Nicolas é consistente nos seus filmes e na violência que eles contêm, isso é notoriamente evidente nos trabalhos que antecediam Drive: Bronson e Valhalla Rising – Destino de Sangue.

Mas, se tentarmos olhar para além do sangue e do gore, para além da violência e do horror, conseguimos detectar em todas essas personagens tão agressivas, uma humanidade e uma certa bondade.
Bronson, era sem dúvida alguém violento, extremamente agressivo e com problemas de controlo de raiva, mas ao mesmo tempo era um artista, um pintor, um performer, uma alma que queria mostrar o seu lado mais inocente e vulnerável ao mundo, e Nicolas faz questão de evidenciar isso.
Em Valhalla faz o mesmo com One Eye e a ligação que terá com Are, o rapaz que o ajuda.
Drive é o seu primeiro filme comercial, mas ele não perde a sua consistência, e num filme com tanta conotação automobilística, Nicolas coloca o pé no acelerador e nunca mais o solta até chegarmos ao fim da viagem.

Podemos agradecer a Hossein a adaptação do livro de James Sallis, mas é a Nicolas que temos de agradecer o filme como resultado final, e o diálogo que daí resulta, ou melhor, a sua ausência.
É um filme com muito pouco diálogo entre as personagens, especialmente por parte da personagem principal.

Driver, interpretado por Gosling, é alguém tão naturalmente cool em tudo o que faz, que o facto de ser tão calado só aumenta essa aura fascinante que gira à sua volta.
E nesse aspecto Ryan foi a escolha indicada. Seja de braços cruzados encostado a um pilar, ou de palito na boca a colocar as suas luvas, a confiança, segurança, mas acima de tudo ar intimidativo que consegue lançar por aqueles olhos azuis e cara jovial, são realmente fascinantes. O facto de raramente falar e nunca sabermos o seu nome, só alimentam mais o mistério que o rodeia.

O escorpião que esta personagem carrega no seu blusão serve como metáfora para a fábula do sapo e do escorpião.
O sapo decidiu ajudar o escorpião a atravessar o rio, com a condição de que este não a picasse. Quando vão a meio da travessia, o escorpião pica a rã e os dois começam a afundar.
Antes de ficarem submersos a rã questiona: “Porque fizeste isso? Agora vamos morrer os dois.” Ao que o escorpião apenas responde: “Está na minha natureza…”
Driver, sendo o condutor de fuga para criminosos, é esta rã, constantemente a transportar escorpiões que mais cedo ou mais tarde irão revelar a sua própria natureza.

Isso acontece exactamente quando decide ajudar Standard (Oscar Isaac), o marido de Irene (Carey Mulligan), a vizinha porque quem se estava a aproximar.
É aí que o filme começa a ganhar ritmo, a história começa a revelar-se, o enredo dá uma volta, e tanto Driver como o espectador são apanhados de surpresa pelas consequências que esse crime inicial irá desencadear.

Drive é um filme único e extremamente fascinante, desde o minuto em que começa até ao minuto em que termina.
A cena de abertura deste filme e a perseguição policial que se desenrola, é das mais realistas, mais bem filmadas e coreografadas que já tive o prazer de ver.
Eu não preciso de grandes velocidades ou carros a explodir e a terem acidentes, dêem-me algo assim: calculado, planeado e realizado na perfeição.
É logo aqui que o espectador fica fascinado pela personagem, pelo ar calmo e tranquilo que mantém em contraste com o medo que os dois criminosos que transporta obviamente estão a sentir.
Nicolas filmou a cena ao longo de dois dias, praticamente sempre no carro com Gosling, para conseguir proporcionar a ideia de claustrofobia que o condutor sente numa perseguição por estar num local tão apertado à medida que também vê o cerco a fechar-se à sua volta.
Foi a decisão certa, dá realmente todo um poder à abertura do filme, que estaria ausente se os ângulos fossem apenas exteriores.

A acção é sempre inesperada, explosiva e curta.
São nos momentos mais calmos que ocorre a cena mais macabra, carregada de sangue e horror. Não há qualquer tipo de aviso ou crescendo com explosão final. Ela simplesmente aparece no seu extremo mais alto, e com a mesma rapidez com que aparece, desaparece, Não há coreografias elaboradas de artes marciais ou grande decoro com os movimentos, é algo cru, bruto e animal na sua natureza.
É algo que se insere bem neste filme e vai de encontro às personagens. Tanto o herói, como o vilão principal, são personagens aparentemente calmas e pacíficas, contudo, no seu interior, está este lado negro capaz de explodir e matar alguém da forma mais violenta possível.

É um filme que tenta fazer homenagem ao cinema dos anos 60, 70 e 80.
Tal como em muitos filmes de Eastwood, o herói principal não tem nome.
E ao contrário de filmes como a saga Velocidade Furiosa, em que temos alguém como o Vin Diesel a vomitar clichés sobre família naquela voz imperceptível, o nosso herói é reservado. É alguém obviamente inteligente e perspicaz, mas que só fala quando é realmente necessário
Não há explosões ou momentos ridiculamente impossíveis e questionáveis, o nosso herói luta se for preciso, para se proteger a ele ou aqueles por quem se preocupa, mas de forma extremamente violenta, bruta e repentina.
Devido a isso, não será um filme para todos. Nos EUA, houve uma mulher que pediu o dinheiro de volta ao cinema porque este filme não era como os da saga Velocidade Furiosa.
É triste e ofensivo para tudo aquilo que representa cinema de qualidade e com algum conteúdo. Mas aqui culpo os trailers, que podem realmente enganar em relação ao género de filme que vamos ver.

O elenco é muito talentoso e como tal todas as prestações são boas.
Ryan está tão perfeito ao ponto de eu não conseguir imaginar mais ninguém a fazer este papel.
Carey Mulligan é o interesse amoroso inocente e bondoso, aquela ligação momentânea que Driver vê como a possibilidade de algo mais, uma oportunidade de ele ser “humano”. E Carey é boa nesse papel, a sua própria cara transmite essa ideia.
Bryan tem um personagem muito diferente daquilo a que estávamos habituados a vê-lo nesta altura, Ruptura Total ainda estava no ar, mas é suficientemente talentoso para em tão pouco tempo e em tão poucas falas criar uma ligação com o espectador, sofremos com ele e com tudo o que acontece.
A melhor surpresa do filme foi Albert Brooks num papel tão violento e diferente daquilo que estava habituado. Ao fim de interpretar o pai de Nemo esta foi sem dúvida uma escolha curiosa para o seu currículo. Mas tem uma transformação bem conseguida, somos capazes de notar a ameaça subjacente a tudo o que diz e faz. Juntamente com Ron Perlman, conseguem criar aqui duas personagens que não deixam espaço para dúvidas em relação a quem são.

A música também ajuda a elevar o filme, a forma como se insere e mistura nas cenas, tornam os dois elementos – imagem e som – em algo único e inseparável.
É um trunfo, aumenta a intensidade de todas as cenas em que a ouvimos e alimenta e dá força ao ambiente retro que o filme quer ter e transmitir.

A cinematografia, desde a cor à iluminação, juntamente com os ângulos interessantes e únicos com que Nicolas quis filmar certos momentos, alimentam o ambiente claustrofóbico e ao mesmo tempo urgente e carregado de perigo que está sempre à espreita.

O uso ocasional de slow motion com a música certa, transformam o filme numa maravilha visual e sonora, criando momentos realmente memoráveis.
Há filme dos quais saímos a citar certas frases icónicas, este filme opta por nos deixar gravadas as suas imagens maravilhosamente filmadas e editadas; e uma banda sonora que recomendo.


Veredicto final: 10/10

Não será um filme para todos os gostos, e nem todos irão entender ou respeitar aquilo que tentaram aqui criar. Mas é um dos melhores filme da última década.
Com um visual único e neo-noir, perfeitamente sincronizado com a sua banda sonora, a acção e adrenalina que Drive proporcionam é algo a não perder.

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