Capitão Fantástico (2016)

Título Original
Captain Fantastic

Género
Drama

Realizador
Matt Ross

Argumentista
Matt Ross

Elenco
Vigo Mortensen, Frank Langella, George MacKay, Samantha Isler.


Nas florestas do pacífico nordeste, um pai empenhado a educar os seus seis filhos com um rigoroso regime físico e intelectual é forçado a deixar o seu paraíso e entrar no mundo da sociedade, entrando em conflito com as suas ideias do que significa ser um pai.


Capitão Fantástico é simultaneamente um dos melhores filmes de 2016 e um dos mais ignorados.

Realizado e escrito por Matt Ross é um verdadeiro testamento sobre o conflito interior que qualquer pai sente em relação à forma como vai preparar os seus filhos para o mundo em que vivemos. O que lhe vai ensinar, quais os valores a que vai dar prioridade, ou pura e simplesmente, quais são as capacidades que necessitamos para sobreviver neste planeta?
E é nesse tema tão sensível e ambíguo que este filme se vai focar.

A realidade é que ninguém sabe realmente a resposta a esta pergunta, todos vamos aprendendo à medida que os dias vão passando. E mesmo que não o queiramos fazer, alguns erros irão ser cometidos, e tudo o que podemos tentar aprender com isso é ensinar aos nossos filhos que é normal cometer um erro de vez em quando, até certo ponto é necessário, é a única forma de realmente aprender.

Viggo Mortensen interpreta Ben, um pai que acha que para os seus filhos estarem preparados para a vida, precisam de saber caçar, curar feridas, estar fisicamente preparados, e que tudo o que precisam de aprender para viver é possível retirar dos livros e de um estudo contínuo.
E até certo ponto o filme vai demonstrar as claras vantagens que os filhos de Ben têm em relação às crianças que são criadas na sociedade. Vantagens não só físicas, mas acima de tudo intelectuais e cognitivas. Os seus filhos, desde o mais novo ao mais velho têm um conhecimento avançado e rico sobre tudo, desde química a filosofia, passando por conseguir falar cerca de seis línguas.

A questão no entanto, é: Mundo VS Sociedade.
E ao colocar as questões desta forma, a realidade é que ler livros não nos vai dar conhecimento prático ou preparar para viver com outras pessoas ou lidar com aquilo que a sociedade representa. E por mais que Ben tente lutar contra essa realidade, ela não deixa de estar lá, e vai sendo cada vez mais notória e forte até chegar a altura em que decisões terão de ser tomadas.

É um filme com um argumento muito inteligente e com prestações de qualidade de todo o elenco, inclusive dos actores mais jovens que em alguns casos terão cerca de seis a oito anos.
A melhor prestação é obviamente Vigo Mortensen, mas isso já não é uma surpresa, o homem tem muito talento e sabe escolher os seus projectos. É alguém que desde o Senhor dos Anéis se afastou, regra geral, dos blockbusters e tem optado por fazer filmes independentes ou de realizadores conceituados. É uma escolha que respeito, e que diz muito sobre a integridade intelectual e artística que ele tem.
Aqui, consegue dar ênfase a uma leque muito variado de emoções, desde ser duro e firme a carinhoso com algum sentido de humor, passando por raiva, depressão e completo desespero com uma transformação tão natural e real que dá um poder único e avassalador ao final do filme.
Contudo, todos os actores que interpretam os seus filhos são charmosos e cativantes à sua maneira. Aqui faço uma menção honrosa a Nicholas Hamilton, que interpreta o filho do meio Rellian. Será uma personagem difícil de gostar, até compreendermos a realidade daquilo que se passa dentro de si, e aí qualquer desprezo que o espectador pudesse inicialmente sentir é substituído por empatia e pena. São vários os momentos explosivos que a sua personagem tem, e se Nicholas não conseguisse dar a ênfase correcta a essas explosões de raiva, a dor que realmente sente podia ser confundida por algo infantil e insignificante, mas consegue demonstrar de forma bem clara a realidade da situação, e em alguém tão novo, demonstra sério potencial para o futuro.

A cinematografia é simples e directa, sem grandes trabalhos majestosos, já que é um filme independente. Contudo, o início do filme, com ângulos aéreos e bem focados e iluminados da natureza que rodeia estas personagens é suficiente para cativar logo o olhar do espectador e o conseguir manter curioso para tudo o que irá acontecer de seguida.

Não conhecia o trabalho de Matt Ross como realizador ou argumentista, apenas o seu trabalho como actor em projectos como Silicon Valley.
Demonstra um grande talento, e o argumento que aqui constrói está realmente muito bom.
Pode haver uma falha ou outra em termos narrativos ou em que o argumento se esticou demais para tentar provar um determinado ponto, mas demonstra muito potencial.
Consegue colocar questões interessantes e filosóficas ao mesmo tempo que serve de crítica bem clara à forma como alguns filhos são educados e defendidos, criando seres vazios, apáticos sem qualquer tipo de conhecimento útil ou até mesmo educação.
Coloca os dois extremos lado a lado, e julgo que consegue no fim chegar a uma conciliação muito interessante que deixará qualquer pai a repensar certas escolhas que já tomou ou irá tomar.
E já que falo no final do filme, Ross encontrou a forma perfeita de encerrar esta história, juntando dois momentos tão diferentes e criando uma mensagem de esperança forte e única.


Veredicto final – 9/10

Com um argumento forte e com conteúdo e uma realização simples mas que leva a estrutura até bom porto, Capitão Fantástico é um dos filmes mais poderosos e tocantes de 2016.
Ancorado por uma prestação emocionante de Vigo Mortensen e um talentoso grupo de actores mais jovens, é um filme que recomendo não só aos pais, mas a todos aqueles que queiram crescer.
O título Fantástico nunca foi tão merecido.

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One thought on “Capitão Fantástico (2016)

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