Em Parte Incerta (2014)

Título Original
Gone Girl

Género
Mistério

Realizador
David Fincher

Argumentista
Gillian Flynn

Elenco
Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry e Carrie Coon


Com o desaparecimento da sua esposa a tornar-se o centro de uma intensa atenção mediática, um homem vê o foco a colocar-se em si quando começam a desconfiar de que ele poderá não ser inocente.


Gone Girl é um dos melhores filmes de 2014 e possivelmente uma das melhores adaptações literárias de sempre.
O primeiro deve-se a David Fincher, o segundo a Gillian Flynn.

David Fincher é um dos meus realizadores preferidos, a atenção ao pormenor e ao detalhe é absurda, e a forma como conta a história focando-se no enredo e nas personagens sem se descuidar ou desleixar é de uma qualidade única.

É um artista que sabe contar histórias de forma coerente.
O seu único deslize terá sido em Alien 3, mas aí culpo o estúdio. A experiência que ele teve nesse filme é de conhecimento público sobre o quão controversa e difícil se tornou.
O realizador chegou a afirmar numa entrevista que ninguém odeia Alien 3 mais do que ele.

Gillian Flynn é uma escritora muito talentosa, mas mais importante neste caso, demonstra ser uma argumentista de nível igual.
O filme é baseado na sua obra, e assim sendo, não houve realmente escolha melhor para desenvolver o argumento do que a própria escritora. Soube adaptar a história, sendo fiel no essencial, alterando o necessário e cortando o dispensável.

Gone Girl é um thriller intenso e aterrorizador, cheio de reviravoltas e revelações chocantes que conclui num final apropriado e perfeito, mas ainda assim, psicologicamente difícil de aceitar.
É um filme que vai ter prazer em surpreender o espectador e assustá-lo com o pior que a natureza humana tem para oferecer, mas acima de tudo, é um filme muito incomodativo. Mete-se debaixo da nossa pele e deixa a audiência desconfortável durante toda a sua duração e bem depois de terminar.

Durante o seu quinto aniversário de casamento, Nick Dunne (Ben Affleck) dá a sua mulher, Amy (Rosamund Pike), como desaparecida.
Sob pressão por parte da polícia e da crescente atenção que a imprensa começa a colocar no caso, a imagem de casamento perfeito entre Nick e Amy começa a desfazer-se a pouco e pouco. Dentro de pouco tempo as suas mentiras e comportamento estranho começam a fazer com que todos comecem a colocar a mesma questão: Será que Nick matou a sua esposa?

Esse é o ponto de arranque para esta película, que na minha opinião merecia ter sido nomeada para Óscar na categoria de melhor argumento adaptado, melhor realizador e melhor filme.

O filme é um slow burner que vai caminhando de forma lenta e cuidada para o seu chocante final.
Todas as dúvidas que temos ao longo do filme, todas as suspeitas e eventuais ódios em relação a algumas das personagens, são cuidadosamente alimentados e fundamentados. O filme nunca dá realmente um passo em falso, sabe sempre a o rumo que quer tomar e qual a melhor forma de o fazer.

As pistas fornecidas são lógicas e inspiradamente colocadas nos locais certos, as personagens estão bem desenvolvidas e comportam-se como seres humanos e não meros peões de um argumento que têm de agir de determinada forma apenas porque sim.

O elenco principal está muito adequado, já o secundário teve umas escolhas bem curiosas e arriscadas, nomeadamente: Tyler Perry, Neil Patrick Harris e  Emily Ratajkowski.

Ben Affleck nunca foi um actor muito talentoso. É um realizador fenomenal, mas à frente da câmara nunca se destacou muito.
Contudo, dentro desse leque mais limitado, tem aqui uma das suas melhores prestações.
Consegue captar a personagem de vítima ao mesmo tempo que mantém uma certa arrogância com a qual se torna difícil simpatizar mesmo quando queremos. Tendo em conta as óbvias falhas da sua personagem, Ben oferece o pretendido.

Rosamund Pike tem aqui a melhor prestação da sua carreira, e merecia ter ganho o Óscar.
Ela é absolutamente fenomenal em todas as cenas que participa, e torna-se possível distinguir praticamente três Amy’s diferentes ao longo de todo o filme.
A forma subtil com que ela distingue cada uma delas, a intensidade das emoções e a entrega total nos momentos mais arrepiantes e chocantes, tornam esta não só a sua melhor prestação, mas a melhor do ano.

Por fim, em relação àquelas escolhas mais arriscadas do elenco:

  • Tyler Perry é alguém que eu acho sem talento nenhum, tanto a nível de actor como realizador. Mas aqui, surpreendeu-me. Não tem nenhuma prestação fenomenal, longe disso, mas consegue o suficiente para não prejudicar o filme. Oferece a inteligência e arrogância egocêntrica que a sua personagem requer.
  • Emily é suposto ser a rapariga sexy e inocente, e desempenha isso na perfeição. Contudo, apesar de o seu papel ser suficientemente pequeno para a sua incapacidade para actuar não prejudicar o filme, haveria escolhas melhores.
  • Neil Patrick Harris é o ponto fraco do filme. Não que ele tenha uma prestação má ou algo do género, porque não tem. Mas tendo em conta o seu carisma natural, o seu talento cómico e para exagerar, é um actor que não fica nada bem na personagem que lhe foi entregue. Obriga qualquer espectador que o conheça a desligar completamente do que está a ver, e isso poderá prejudicar a experiência final do filme, ou pelo menos, as cenas em que ele se encontra inserido.


Veredicto Final: 9/10

David Fincher volta a entregar uma película de qualidade superior e o argumento de Flynn consegue desfazer-se de algum volume da obra original sem comprometer o suspense da história.
Um thriller intenso carregado de mistério e momentos chocantes.
Rosamund Pike oferece a melhor prestação do ano, num papel assustadoramente real.

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