Demolição (2016)

Título Original
Demolition

Realizador
Jean-Marc Vallée

Argumentista
Bryan Sipe

Elenco
Jake Gyllenhaal, Naomi Watts, Chris Cooper, Judah Lewis e C. J. Wilson


Um investidor bancário, bem sucedido, luta com a dificuldade de encarar a vida ao fim de perder a sua esposa.
Com a ajuda de uma representante do serviço de apoio ao cliente para máquinas automáticas e do seu filho, ele começa lentamente a reconstruir a sua vida, começando por demolir aquela que conhecia.


Nesta era de filmes de super-heróis, Star-Wars e adaptações literárias com adolescentes atraentes e populares, torna-se difícil para filmes com algum significado e conteúdo, que queiram tocar a alma e o coração da audiência, ter o merecido sucesso e a oportunidade de brilhar.

Este último filme de Jean-Marc Vallée, ao fim de ter saltado para o estrelato com o fenomenal Dallas Buyers Club em 2013, é um exemplo recente dessa situação que atravessamos.
Com um orçamento de apenas 10 milhões, a sua receita a nível internacional ficou abaixo dos 2 milhões.

Com uma realização firme e segura, um argumento extremamente interessante que esteve na Blacklist de 2007, a lista que continha os melhores argumentos por produzir desse ano, e prestações convincentes e emocionais por todo este elenco fenomenal liderado por Gyllenhaal, Demolition foi para mim uma das melhores surpresas de 2016.

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É um filme que primeiro estranha-se e depois entranha-se.
Mas é necessário estar atento a todos os pormenores que o argumento e as prestações dos actores nos vão fornecendo ao longo da película.
Contudo, reconheço que não é um filme para todos, para alguma irritação minha até a minha namorada adormeceu ao meu lado quando o vimos no cinema.
E devido a isso as críticas para este filme foram mistas.

Mas quem pode eventualmente achar que é um filme que falha no seu objectivo e vê clichés na sua narrativa, então ou não esteve atento ou não consegue compreender a originalidade por trás da forma como a narrativa é apresentada.

Davis (Jake Gyllenhaal) é um investidor de sucesso que trabalha na empresa de Phil (Chris Cooper), que é também pai da sua esposa, Julia (Heather Lind).
Quando têm um acidente de carro e Julia morre, Davis começa a questionar toda a sua vida, o que fez, o que faz, e como seguirá a sua vida daqui para a frente.
Não que ele sinta falta de Julia, porque não sente, e o problema é exactamente esse. O ele não sentir falta dela, o achar que nunca a amou e que casou apenas por uma questão de conveniência, começam a levá-lo numa viagem pela metafórica toca do coelho.
Uma viagem de auto descoberta, onde antes de reconstruir a sua vida terá de a destruir por completo, ver o que a faz funcionar e como é cada uma das peças que a constitui.
Daí o título do filme, Demolição, que adoptará um sentido tanto metafórico como literal-
Ao escrever cartas para o apoio ao cliente de uma máquina automática que lhe ficou com o dinheiro, ele irá desabafar, sobre si, sobre a sua vida e sobre a sua situação, uma espécie de tratamento emocional. Ele faz isto sem saber que do outro lado há realmente alguém a ler essas cartas, Karen (Naomi Watts).
É com ela e o seu filho (Judah Lewis) que Davis entrará nesta viagem emocional de auto-descoberta.

É um filme que caminha no limbo entre o metafórico e o literal, criando um certo paradoxo que aumenta o poder e tenta deixar a mensagem do filme o mais clara possível. Julgo que o argumentista, Bryan Sipe, o construiu dessa forma já para tentar não perder a audiência, sabendo que nem todos têm interesse em seguir algo que possa ter uma mensagem mais escondida e que exige mais alguma interpretação.

A personagem de Davis, apesar de pensar o contrário durante a maior parte do filme, amou a sua mulher. O problema é que algures, a meio do casamento, desistiu. Deixou de se esforçar pela relação, deixou de demonstrar o seu amor e de amar como seria suposto, entrou no piloto automático que a rotina tantas vezes acaba por nos impor.
E só compreendeu isso, e começou a questionar as suas decisões, quando perdeu Julia.

É uma personagem que se encontra perdida, a questionar a sua vida, a questionar-se a si e ao mundo que o rodeia. Agora viúvo, começa a reparar em coisas que não tinha reparado antes, a bolha que ele construiu para si rebentou quando a sua mulher faleceu, e está a ver o mundo novamente pela primeira vez, mas é tudo tão diferente que ele não o compreende, ou pelo menos, não com a sua construção actual.
Então a única solução é destruir-se, destruir tudo o que há na sua vida, e isso envolverá não só a sua personalidade e tudo aquilo que foi definindo sobre quem é ao longo desses anos como também a sua própria casa e qualquer objecto à sua volta que lhe chame a atenção.

Será uma viagem até ao inevitável crescimento emocional da personagem, altura em que compreende que amou Julia, que qualquer problema que o casamento tenha tido, se deveu a ele e à falta de atenção que ele depositou na relação, apesar do esforço que ela sempre teve para que tudo desse certo.
Temos uma personagem que admite e reconhece os seus erros, que sente finalmente a perda da sua mulher e que pode então, agora como um homem novo, seguir em frente e construir esta sua nova vida passo a passo.

Jake tem aqui mais uma prestação impressionante, continuando a seguir esta sua onda imbatível de sucesso desde há uns anos para cá.
É sem dúvida a melhor prestação do filme, conseguindo colocar na sua personagem toda a intensidade e leveza necessária para fortalecer todas as cenas e as mensagens que elas querem transmitir.

Chris Cooper e Naomi Watts no elenco secundário fornecem o apoio necessário a Jake e permitem-lhe desenvolver a sua personagem com sucesso nas relações que vão estabelecendo entre si.
Dou também destaque para Judah Lewis, que cria aqui uma personagem difícil mas também uma das mais interessantes do filme, que vai encontrar em Davis um aliado, e alguém que consegue finalmente dar-lhe a força necessária para se assumir como realmente é.

Um filme livre de preconceitos, que consegue ser sério e cómico, sem nunca faltar ao respeito a nenhum dos géneros.

Contém muitos elementos depressivos, apesar de manter sempre um certo humor presente, e assim sendo é algo que afasta grande parte do público, porque ninguém se quer sentir mal.

Eu já tive os meus momentos mais negros, já tive a minha depressão, e são muitas as alturas em que me sinto perdido. Por isso este foi um filme que me tocou a um nível mais pessoal e emocional que o habitual, abriu-me os olhos nalguns aspectos e deu-me esperança em relação a outros.

Demolition toca em temas já focados em muitas outras obras, mas fá-lo a partir de uma perspectiva nova e diferente, uma perspectiva que merece ser vista, pensada e admirada.
Podem não gostar do filme ao fim de o verem, mas devem pelo menos respeitar aquilo que tentaram aqui construir.
Não é uma película que vai reinventar a roda, mas certamente que lhe dá um uso inovador.


Veredicto Final – 8/10

Jean-Marc pode acrescentar mais um trunfo ao seu currículo, apesar de o grande poder deste filme estar no argumento que Bryan Sipe construiu. Criaram uma obra carinhosa, simpática e que consegue tratar de forma leve e com algum humor, temas tão reais e difíceis.
Gyllenhaal oferece mais uma prestação digna de nota, ancorada por um forte elenco secundário em Naomi Watts e Chris Cooper.

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