American Psycho (2000)

Título Original
American Psycho

Género
Comédia

Realizadora
Mary Harron

Argumentista
Mary Harron e Guinevere Turner

Elenco
Christian Bale, Jared Leto, Willem Dafoe, Josh Lucas e Reese Witherspoon


Um bem sucedido investidor de Wall Street esconde o seu alter-ego psicopata dos seus colegas de trabalho e amigos, enquanto mergulha cada vez mais nas suas fantasias violentas e hedonísticas.


Amerycan Psycho é um filme baseado no livro com o mesmo nome, escrito por Bret Easton Ellis.
E, tal como o livro, também o filme esteve envolvido em inúmeras controvérsias.

O problema com o livro de Ellis é que as pessoas não souberam interpretá-lo.
Sim, é um livro extremamente gráfico, violento, com homicídios e um nível de detalhe assustador. Mas isso é apenas a superfície, numa análise mais profunda, é possível compreender que o livro é uma sátira, uma crítica à mentalidade vazia e gananciosa de Wall Street, ao capitalismo.

Contudo, como interpretar e analisar dá demasiado trabalho, as pessoas acabaram por se focar nos homicídios, e consideraram o livro um projecto de violência gratuita, vazio de conteúdo e uma desculpa sadomasoquista para descrever homicídios horrendos.
O livro mudou várias vezes de editora, demorou inúmeros anos a ser impresso, foi proibido em alguns países, censurado noutros e naqueles em que foi vendido, alguns incluíram inúmeros avisos ou até mesmo a proibição da sua venda a menores de 18.

Ellis recebeu inúmeras ameaças de morte.
Ironicamente, uma das sua maiores opositoras, a feminista Gloria Steinem, viria a ser a madrasta de Christian Bale, o actor principal desta adaptação.

Há quem considere Amerycan Psycho um filme de terror, outros preferem chamar-lhe de thriller, eu opto por chamar-lhe de comédia negra.

Uma comédia extremamente negra, mas ainda assim, uma comédia. E tal como o livro, uma óptima sátira para o capitalismo e para a mentalidade banal e fútil de Wall Street.
E tendo o trunfo de ser realizado por uma mulher, é também uma óptima crítica ao ego masculino e aos homens enquanto seres primitivos guiados apenas pelo seu instinto e vontade animalesca de satisfazer a sua fome sexual e egotística.

Foi um filme que teve muitas trocas de bastidores, não só em actores mas também em realizadores. A dada altura iria ter Brad Pitt ou Johnny Depp no papel principal com realização de David Cronenberg.

Quando o filme chegou às mãos de Mary ela demorou a escolher o actor principal, considerando várias opções antes de se decidir por Bale.
Contudo, à ultima da hora o estúdio soube que Leonardo Dicaprio estava livre e decidiram oferecer-lhe o papel.
Leonardo aceitou, Mary decidiu abandonar o projecto e entra um novo realizador, Oliver Stone.
Quando o casting estava todo escolhido, com o acrescento de nomes como James Woods e Cameron Diaz, Leonardo abandonou o filme para ir fazer The Beach.
Nesta altura, com o orçamento a fugir ao controlo do estúdio, Oliver decidiu também abandonar o projecto.
É aqui que o estúdio regressa a Mary e a deixa filmar com o elenco que ela pretendia.

Este é capaz de ter sido um dos poucos trabalhos de Mary Harron que vi, mas ao analisá-lo com atenção, é uma realizadora que merecia ter tido mais oportunidades. O nível de detalhe e minuciosidade, é absurdo.

A cinematografia e a realização andam sempre de mãos dadas, fornecendo à audiência uma visão privilegiada desta espiral descendente de Patrick Bateman em direcção à loucura e a um caos cada vez maior e mais horrorífico.

A cena em que o detective Kimball (Willem Dafoe) entrevista Bateman (Chistian Bale), sempre me fascinou, e o porquê de isso acontecer é muito simples: a cena foi filmada de três formas diferentes a nível de interpretação por parte de Dafoe.
O actor gravou a cena três vezes: a primeira a saber que Bateman era culpado; a segunda a desconfiar de Bateman; a terceira sem saber se ele era culpado ou não.
De seguida, Mary editou a cena com takes das três interpretações, criando ali um autêntico trunfo e momento poderoso do filme em que o espectador fica ainda mais perdido e confuso em relação ao que está a acontecer e se todos conseguem, ou não, ver o perigo que Bateman realmente é.

Tendo em conta que Mary também trabalhou no argumento, este filme é sem dúvida o ponto alto da sua carreira e um motivo de orgulho.
Tenho a ideia bem clara de que se tivesse sido realizado e escrito por um homem, o filme não teria o poder que tem, não seria tão ambíguo, intenso e misterioso. Provavelmente teríamos um final mais fechado e simplista, e a loucura de Patrick seria justificada com algum termo psicológico que não deixaria dúvidas na mente do espectador em relação ao que aconteceu e porquê.

O argumento, apesar de negro e ter mortes e detalhes horríveis, teve de se conter muito em relação ao livro, seria impossível colocar na tela tudo o que estava na obra literária.
E mesmo assim, tiveram de ser feitos cortes e novas edições, ao fim de a versão original ter recebido a classificação de NC-17, o que prejudicaria de forma incalculável a performance do filme na box-office.

Contudo, acho que temos violência na dose certa, permitindo o tom negro e intimidador do filme e da personagem sem ser demasiado gratuito ou excessivo. É uma quantidade que deixa claro quem Bateman é e o que acontece, sem ultrapassar os limites do necessário ou até mesmo do aceitável.

Mas continua a ser uma adaptação fiel em tudo o que interessa, já que grande parte do diálogo é retirado na íntegra das páginas do livro.

Em relação às prestações, este é outro aspecto importante no qual considerar este filme como uma comédia negra e sátira é sem dúvida a melhor forma de o poder desfrutar.
Caso contrário, se formos ver isto como elemento puramente dramático, as interpretações irão parecer exageradas e over the top, em vez das caricaturas que é suposto serem.

Todas elas estão bem conseguidas, cada uma à sua maneira, até mesmo aquelas que podem ser mais pequenas continuam a contribuir e a terem uma importância fundamental ao desenvolvimento da história.

Mas, aquela que merece ser discutida é sem dúvida a de Christian Bale.

Desde esta altura, Bale já teve inúmeras prestações de qualidade e relevo, tendo inclusive ganho um Óscar, mas esta apesar de ignorada em grande parte pelos críticos, continua a ser uma das suas entregas mais completas. Tendo em conta o quão assustadora, ridícula, intensa e psicologicamente perturbadora é a mente de Patrick Bateman, Bale nunca questiona nem recua, entregou-se de corpo e alma ao papel, naquela que foi a primeira grande transformação física da sua carreira.

American Psycho tem uma das minhas aberturas preferidas no cinema, começando o filme com a rotina diária de Patrick Bateman. Rotina essa que Bale, durante toda a produção do filme, seguiu à risca todos os dias, de forma a manter-se dentro da mentalidade egocêntrica, vaidosa e obsessiva da personagem.

Para criar a personagem de Bateman, Bale teve duas inspirações interessantes: uma entrevista a Tom Cruise e a prestação de Nicolas Cage em Vampire’s Kiss.
Resultou, Patrick Bateman é não só uma das personagens mais perturbadoras do cinema, como sem dúvida uma das mais peculiares e interessantes.
Uma das melhores prestações de Bateman, num dos melhore filmes da sua carreira, mesmo que não o reconheçam como tal.


Veredicto Final: 10/10

Com uma incrível prestação de Christian Bale e uma realização minuciosa e detalhada de Mary Harron, aliados a um argumento consistente e coerente, American Psycho coloca-nos directamente na mente de Patrick, que apesar de assustadora, é deveras interessante.
Com um final ambíguo e perfeito, American Psycho é não só um filme que estava à frente do seu tempo, como uma sátira carregada de humor negro que acerta no coração do problema capitalista que se atravessava nos anos 80/90.

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