Dear White People – 1ª Temporada (2017)

Título Original
Dear White People

Género
Comédia

Criador
Justin Simien

Elenco
Giancarlo Esposito, Brandon P. Bell, DeRon Horton, Wyatt Nash e Nia Jervier


Um grupo de alunos afro-americanos tenta navegar as várias descriminações raciais que enfrentam na sua universidade.


Em 2014 estreou o filme Dear White People, escrito e realizado por Justin Simien.
O filme recebeu algumas críticas positivas nos festivais em que estreou e criou também alguma controvérsia.

Agora, em 2017, Justin volta com o mesmo material, mas apenas um pouco mais desenvolvido para justificar os seus 10 episódios, e tendo em conta a nossa época, consegue tocar em assuntos mais actuais.
Tal com o o filme de 2014, também esta série criou alguma controvérsia sendo recebida com muito criticismo e críticas de racismo inverso e descriminação contra os caucasianos.
O trailer no youtube foi recebido maioritariamente com críticas negativas e ameaças de várias pessoas a quererem cancelar a sua conta de Netflix por a empresa estar a produzir este tipo de material.

Pessoalmente nunca julgo algo pelo trailer ou por aquilo que algo me parece ser, prefiro ver sempre a série ou filme para tirar as minhas próprias conclusões, podendo fundamentar tudo aquilo que eu digo e não parecer hipócrita ou ignorante na informação que pretendo colocar na minha crítica e tentar dar uma opinião justa.
E assim, apesar de o trailer não me incomodar e parecer perfeitamente inocente, foi exactamente isso que fiz aqui.

Nunca cheguei a ver o filme de 2014, e previamente a esta série nem sabia da sua existência, mas pela pesquisa que fiz a história é exactamente a mesma.
A grande diferença, para além das alterações em grande parte do elenco, é que aqui Justin tem possibilidade de desenvolver o seu argumento e as suas personagens, corrigindo eventuais erros de coerência ou lógica do seu argumento original.

E em termos de desenvolvimento de personagens e humor crítico à sociedade e à própria geração actual de jovens, a série consegue manter-se sempre bem equilibrada, o problema é que mesmo assim não tem material suficiente para justificar os seus 10 episódios.
E devido a isso, a história recomeça várias vezes sobre pontos de vista diferentes, que apesar de desenvolverem um pouco mais algumas personagens não justificam o seu próprio episódio.

Em relação ao tema da série e à consequente acusação de racismo que é feito para com todos os brancos – e quando digo todos é mesmo todos, até mesmo aqueles que são apresentados como bem intencionados na própria série acabam por ser vistos como o inimigo – Justin Simien consegue ser bem hipócrita e injusto no argumento que aqui desenvolve.
Tornou-se tão incomodativo que foi impossível para mim identificar-me com alguma das personagens, e só me deixou gostar de uma, que curiosamente é apresentada como uma daquelas com quem não é suposto criamos empatia.

Sendo eu branco, torna-se difícil para mim discutir esta série sem ser acusado de racismo ou ignorância, e estivesse eu a escrever para alguma revista certamente que teria de ter imenso cuidado com a forma como criticaria esta série, ou provavelmente teria de escrever uma crítica extremamente positiva sobre o quão inteligente e satírica ela é.
Contudo, isto é apenas o meu blogue, que tenho perfeitamente noção que poucas pessoas lêem, e assim sinto-me livre para poder expressar-me, ainda que o faça com imenso cuidado por uma questão de respeito e sensibilidades que todos temos.

Esta é uma série que na tentativa de lançar alguma luz sobre o racismo contra os afro-americanos, ignora racismo contra mexicanos, asiáticos e até mesmo inúmeros outros problemas que afectam a nossa sociedade e o próprio sistema universitário em que ela se insere.
São feitas piadas sobre o facto de haver asiáticos, nomeadamente crianças, a serem exploradas na construção de certos produtos que eles usam e até mesmo em relação a um jovem que se mata acidentalmente devido a estar alcoolizado.
Estes, bem como outros temas, são sempre mencionados levemente ou até mesmo a base para piadas, enquanto nos martelam vezes e vezes sem conta com a carta de racismo.

Eu tenho perfeita noção que o racismo não é algo que acabou, infelizmente ainda há muitas pessoas ignorantes.
Contudo, da mesma forma que nem todos os afro-americanos são criminosos e pensar assim é absolutamente cego, ignorante, ofensivo e limitado; também nem todos os brancos são racistas, ignorantes, estúpidos e que discriminam e isso é algo que a série em si nunca tenta reconhecer.

Até mesmo aquela personagem branca que é suposto ser o elo de ligação com a audiência caucasiana acaba por ser tratada de forma injusta e errada pela protagonista quanto tentou fazer algo completamente compreensível e correcto.

É uma série que toca em muitos assuntos reais e correctos, mas que depois hiperboliza situações que não necessitavam de ser exageradas, e que mesmo numa comédia que é suposto ser uma sátira, acabam por destoar do ambiente em que se inserem e prejudicam não só a mensagem mas o próprio fluir da narrativa.

Compreendo aquilo que aqui tentaram fazer, mas ficaram tão cegos, que acabaram por se perder na mensagem que tentavam transmitir.
A série American Crime Story, na sua primeira temporada, faz um trabalho muito melhor em discutir o racismo e a forma como esta parte da população é afectada por ele, conseguindo tocar em todos os pontos necessários e afectar o espectador sempre com coerência e lógica.

Em termos de comédia tem um momento ou outro, como a paródia que fazem com a série Scandal, mas para uma série que se chama”Caras Pessoas Brancas” é ironicamente muito pouco direccionada para esse lado da população.
E isso é provavelmente propositado, mas é uma pena, porque podiam ter aqui criado algo que conseguisse unir os diversos membros do público, em vez de contribuir para a sua separação.

Poderia criar personagens interessante em ambos os lados da discussão, de forma a criar um consenso, em vez disso as personagens de cor são desenvolvidas de forma a odiar o “diabo branco” e as personagens caucasianas são todas retratadas como estúpidas ou ignorantes.


Veredicto Final: 5/10

É uma série bem intencionada e com uma mensagem importante, mas fica tão cega na forma de passar essa mensagem que acaba por se tornar hipócrita e repetitiva.
Talvez seja o ambiente em que me encontro que não me permite identificar com o material aqui exposto, mas até para uma sátira, a grande premissa da série pareceu-me tão ridícula e exagerada que dificulta que consiga engolir tudo o que daí advém, apesar de conseguir focar alguns assuntos importantes e actuais ocasionalmente.
Para quem odiou ou ficou ofendido com o trailer, não vale a pena verem a série porque não irão gostar; para os restantes, poderão apenas ver por uma questão de curiosidade.
Há comédias melhores, há sátiras melhores, há séries melhores a passarem a mesma mensagem ou mensagens semelhantes.

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