American Crime Story – 1ª Temporada (2016)

Título Original
American Crime Story

Género
Crime

Criador
Ryan Murphy

Elenco
Cuba Gooding Jr., Sarah Paulson, John Travolta, Courtney B. Vance e Sterling K. Brown


Uma série antológica que se vai focar nos crimes mais famosos da história americana.
Esta primeira temporada trata o julgamento mediático de OJ Simpson, acusado de assassinar a sua ex-mulher Nicole Brown e o seu amigo Ronald Goldman.


Ryan Murphy é neste momento uma das maiores mentes criativas da televisão, quer gostem dele ou não, é um produtor e criativo que está envolvido em quatro séries diferentes que não mostram intenções de abrandar, e foi também o criador do êxito comercial e crítico que foi Glee.

Pessoalmente, nunca fui grande fã do seu trabalho, só tolerei American Horror Story, mas ao fim das duas primeiras temporadas a qualidade foi-se perdendo, apesar de ainda não ter visto esta última temporada que dizem estar melhor.

E assim sendo, quando soube que ele estava a envolver-se numa série antológico que iria ter cada uma das suas temporadas a tratar crimes famosos que realmente aconteceram, não fiquei tão interessado como a maioria dos críticos e fãs.
Porque pelo que conheço de Murphy enquanto pessoa, de entrevistas e artigos, ele para além de ser um pouco arrogante e cínico, tem também alguma dificuldade em separar os seus ideais políticos e crenças pessoais do trabalho que está a desenvolver.
No fundo, não me parece uma pessoa com a imparcialidade necessária para tratar certos temas, e isso irá provavelmente ser bem óbvio na próxima temporada de American Horror Story que irá supostamente girar à volta da eleição de 2016.

Mas, pelo menos em relação a esta série e à sua primeira temporada, eu não podia estar mais enganado, é uma série que se mantém imparcial do início ao fim.
Adorei e fui surpreendido por todos os seus aspectos: realização, argumento, prestações, edição, montagem, guarda-roupa e toda a produção técnica que garantiu o ambiente da época em que se insere.

Eu era muito novo quando o julgamento de OJ teve lugar, e apesar de sempre saber o quão popular se tornou, não fazia a mínima ideia da atenção mediática que teve e de que forma influenciou e dominou a vida de tantas pessoas durante os 372 dias que durou.

Ao fim de ver a série, e de fazer alguma pesquisa, tenho de dizer que o trabalho que Murphy e a sua equipa aqui fizeram merece ser aplaudido e aclamado.

O argumento fez um trabalho fenomenal não só na forma como estruturou a história e desenvolveu as personagens, mas também por fazer questão de mencionar que isto aconteceu apenas dois anos depois de todos os motins e destruição pela morte de Rodney King.
A época em que este acontecimento tem lugar transformou esta situação em algo muito explosivo, e tivesse OJ sido considerado culpado, julgo que a América teria entrado nalguma espécie de Guerra Civil.

As famílias da vítima acusaram a série de ser faltar ao respeito à memória das vítimas, e apesar de eu respeitar a sua opinião e compreender a sua dor, não concordo nada com essa afirmação. Houve sempre um cuidado enorme a respeitar todos os envolvidos, e acima de tudo a manterem-se imparciais sobre a inocência ou culpabilidade de OJ, deixando os factos e ambas as partes falarem por si.

Poderão dizer que as vítimas não foram muito focadas, mas isso não é uma falha da série, porque o objectivo sempre foi o julgamento, as personagens principais não são nem as vítimas nem o próprio OJ, são os advogados que fazem parte da acusação e da defesa.
E com a decisão de colocarem o foco em todo esse trabalho de investigação, burocracias e leis, havia um risco enorme de se tornar aborrecida, mas isso nunca é o caso, a série é sempre cativante e interessante, e apesar de sabermos o desfecho final, eu dei por mim a acabar cada episódio com uma curiosidade enorme de ver o seguinte para saber o que ia acontecer.

É uma série que soube focar o racismo que girou em volta do caso, mas teve também a atenção de tocar no sexismo de que Marcia Clark foi alvo, as críticas que sofreu e tudo aquilo que teve de tolerar é absolutamente vergonhoso e igualmente inadmissível.
A série poderia passar por cima de certos aspectos, mas nunca o fez, nunca recuou perante tópicos e temas difíceis e constrangedores.
Haverá alguns momentos em que na tentativa de tocar em todos os aspectos do que aconteceu poderá ter deixado alguns assuntos por resolver e encerrar, mas são falhas menores num trabalho de qualidade superior.

A realização está também muito boa, especialmente pelo trabalho de pesquisa que fizeram e na ideia muito interessante e curiosa de filmarem a maioria das cenas do julgamento da mesma forma que elas foram filmadas durante o acontecimento real. Ideia essa que foram repetindo ao longo da série com ângulos televisivos.

O único aspecto que me incomoda é quando numa série tão pequena, com apenas 8 episódios, mudam várias vezes de realizador.
Julgo que devia ser algo a evitar, porque a consistência e o tom seriam maiores, não que se notem falhas ou algo semelhante, mas cada realizador tem a sua forma de ver a história e é notório ao longo dos episódio a subtil mudança de quem está atrás da câmara.
Algo que, por exemplo, na primeira temporada de True Detective não aconteceu e se tornou um enorme trunfo da série.

Em relação ao elenco, todos eles deveriam ter sido nomeados ou até mesmo ter ganho vários prémios nesse ano.

Não há uma única prestação fraca, até mesmo as personagens mais secundárias conseguem oferecer o melhor tratamento possível  daquilo que lhes é pedido.
E a caracterização do elenco e os actores escolhidos para os papéis que desempenham, é na sua maioria, absolutamente perfeita.
São actores extremamente talentosos a oferecerem algumas das melhores prestações das suas carreiras.

Já não me lembrava da última vez que via Travolta realmente a actuar, a entregar-se a um papel e oferecer uma prestação convincente e credível.
Quando estes acontecimentos tiveram lugar, Travolta estava a viver do sucesso de Pulp Fiction e do seu regresso a Hollywood ao fim de começar a ser esquecido, é irónico que com este papel possa novamente ter o seu sucesso associado a memória semelhante.

Sarah Paulson, Courtney B. Vance e Sterling K. Brown, estão num campeonato à parte, que prestações absolutamente incríveis e poderosas, fiquei fascinado de cada vez que eles estavam no ecrã.

Cuba Gooding Jr. tem uma prestação ora subtil e contida ora explosiva e desenfreada, jogando muito bem com os diferentes temperamentos de OJ.
E a decisão que ele teve de filmar sempre dois takes diferentes, um em que actuava como culpado e outro em que actuava como inocente, é apenas uma das poderosas e excelentes decisões criativas que esta série tomou. Com dois takes disponíveis, o editor conseguiu alternar entre as cenas, ou até mesmo construir algumas delas com takes diferentes, deixando tanto o público como as “personagens” em dúvida constante.

No final da série, cabe ao público tomar a sua decisão, e dar o seu veredicto.

Pessoalmente não tenho dúvidas que foi ele, e o facto de ele ter sido considerado inocente é uma ofensa enorme para os sistema judicial, para as vítimas e para as famílias que tiveram de viver sem poderem realmente encerrar esse capítulo.

A decisão de o colocarem a experimentar a luva e o facto de vir a ser revelado o passado racista e discriminatório da sua testemunha principal foram as grandes causas de a defesa ter perdido.

Se havia dúvidas se teria sido ele, basta olhar para tudo o que aconteceu depois.
Mais tarde escreveria o livro “If I Did It” que devido à polémica que criou acabou por ser retirado das prateleiras. Nesse livro OJ detalha pormenorizadamente a forma como ele teria cometido o crime, comentando a forma como teria morto a sua ex-mulher e o seu amigo e tudo o que aconteceu depois.

Em 2007 foi preso por sequestro, criar um gangue e assalto, sendo condenado a 33 anos.
No tribunal civil teria sido previamente culpado pelo assassínio de Nicole e Ronald e condenado a pagar 33 milhões às vítimas da família, contudo até ao dia de hoje só pagou cerca de 500 mil dólares.


Veredicto Final: 10/10

American Crime Story tem aqui a melhor estreia possível com esta sua primeira temporada.
As falhas são minúsculas nesta série que exala qualidade em todos os seus aspectos, principalmente na realização, argumento e prestação dos actores.
Apesar de todos nós sabermos o final, a história é contada de uma forma absolutamente cativante e interessante, aumentando sempre a curiosidade do espectador.
Uma série que soube respeitar todos os envolvidos, manter-se fiel aos factos e imparcial durante todo o seu percurso, algo que nem sempre terá sido fácil.
Não podia recomendar mais esta temporada!

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