2 anos…brevemente…

Dia 27 de Maio irá fazer dois anos que perdi a minha avó.

Foi o dia mais difícil da minha vida, e espero que continue a ser durante muito tempo.
Já tinha perdido pessoas que me eram próximas, já tinha ido a funerais e visto aquela dor, mas não há nada que nos prepare para o sentimento real que é perder possivelmente a pessoa mais importante da nossa vida.

Preparei-me tanto para aquele momento, recordo-me de estar a chorar naquele hospital, sentado impotentemente a ver a minha avó a lutar por respirar, mesmo com a ajuda das máquinas.
Aquela mulher que eu tinha visto ao longo de tantos anos a cometer tantos actos de força e coragem, uma força absurda para o seu corpo tão pequeno, uma alma e uma coragem tão grandes para a sua estatura…uma gigante presa naquele corpo mais fraco e frágil que nunca soube fazer jus àquele ser brilhante e magistral que estava no seu interior.
E agora ali, essa Mulher tão forte, lutava todos os segundos para dar apenas mais um fôlego…

Eu dizia todos os dias a mim próprio: Ela não vai sobreviver Luís…prepara-te, mentaliza-te…
Odiava-me por pensar aquilo, sentia que era eu a desistir, mas ao mesmo tempo não conseguia correr o risco de me entregar totalmente à esperança e fé cega, não a ver o estado em que ela estava…

E ainda assim, com toda essa preparação, no dia 26 quando a visitei pela última vez e o médico me disse que não havia nada a fazer, que era uma questão de tempo, o mundo inteiro desabou-se debaixo dos meus pés e eu comecei a ser engolido e a cair…
Uma queda que ainda hoje não demonstra sinais de abrandar.


 

Foto de Luís Santos.

Dia 19 de Maio os médicos disseram-me que na melhor das hipóteses o cancro da minha avó estava apenas nos rins, significando que com diálise, e um milagre, eu ainda a podia ter comigo por mais uns três anos.
Lembro-me de o médico me dizer aquilo como se me estivesse a atirar um salva vidas, como se aquilo fosse uma boa notícia…como se alguém já me tivesse preparado para aquilo. E lembro-me também da cara dele quando eu caí para trás contra a parede, como se tivesse acabado de levar um murro. Lembro-me do quanto chorei sentado ao pé dos elevadores, completamente sozinho e perdido.

Dia 20 de Maio, 7 dias antes de a perder…escrevi este texto:

“Esperança, fé, positivismo.
São sentimentos tão abstractos e ambíguos, um pouco como o amor.
Quando amamos alguém, e essa pessoa nos ama e estamos juntos, não há nada melhor. O conjunto de sentimentos e emoções extra que vêm desse único sentimento inicial, são absolutamente inumeráveis e indescritíveis de tão maravilhosos que são.
Contudo, quando é apenas uma pessoa a senti-lo, ou algo de mau acontece, o sentimento, apesar de não mudar, transforma logo aquilo que emana para nós.
Em vez de alegria vem tristeza, dor e sofrimento, angústia e desespero.
A esperança é um pouco assim, em alturas difíceis a escolha mais fácil é a esperança, não que seja fácil ter esperança, isso é diferente. Ter esperança é difícil, mas é a escolha mais fácil e que traz menos dor, aquece-nos de noite e coloca uma espécie de sorriso na cara acreditar que tudo vai correr bem.
Contudo é difícil manter essa escolha.
Por outro lado, nem toda a esperança é recompensada, e por vezes o ter esperança, fé, e positivismo pode no futuro trazer uma quantidade de dor tremenda.
Não que ao ser pessimista e pensar o pior evitemos essa dor, dói sempre, custa sempre, dá é apenas a sensação que a queda é menor. Ou pelo menos, já começámos a cair com tanta antecedência que agora a distância para o impacto é menor.
Sempre fui uma pessoa negativa, pessimista, isso sempre me veio um pouco de forma mais natural, talvez preguiça, pensar que tudo vai correr mal dá menos trabalho.
Nunca quis tanto pensar positivo como neste momento. Nunca quis tanto ter fé, ou esperança como quero neste momento. E lá está, entre o querer e o ter, vai uma distância grande, até porque, ironicamente, o momento em que mais esperança quero ter, é aquele onde constantemente têm sido dado provas que isso só irá custar e magoar mais no futuro. E, de certa forma…sinto que se desistir já dessa esperança, estou a enviar alguma espécie de sinal para o universo, como se já que não há esperança nenhuma deste lado, que não vale a pena tentar recompensar-me, que não mereço a alegria se não quero acreditar ou “lutar” por ela…
Talvez seja apenas eu a querer colocar algum controlo numa situação que foge totalmente ao meu controlo. Talvez isto seja apenas eu a dizer que há algo que eu possa fazer no meio disto tudo, que não sou inútil, e que não tenho de ficar na bancada a sentir-me impotente, que posso levantar-me e ir para o campo, lutar e ter esperança…é essa a minha função, levantar-me e ter esperança, é isso o que posso e devo fazer.
E talvez seja apenas por isso que escrevi este texto, não para alguém ler, ou para alguém concordar ou clicar gosto, mas apenas, para o escrever, para o colocar aqui, para o enviar para o universo da única maneira que me ocorreu…
Por isso, Universo…independentemente de isso me trazer mais sofrimento no futuro, independentemente de qualquer dor extra que possa advir…eu estou aqui! Eu tenho esperança, ou pelo menos, irei lutar por ela…agora, faz tu o teu trabalho, faz tu a tua função!”

Não há um dia que custe menos ou que a saudade diminua.
Onde quer que esteja, amo-a muito.

 

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