Cães Danados (1992)

Título Original
Reservoir Dogs

Género
Crime

Realizador
Quentin Tarantino

Argumentista
Quentin Tarantino

Elenco
Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Chris Penn e Steve Buscemi


Ao fim de um simples assalto a uma joalharia correr de forma terrível, os criminosos que sobreviveram começam a suspeitar de que um deles será um informador da polícia.


Reservoir Dogs é o primeiro filme realizado e escrito por Quentin Tarantino, e nesta sua estreia, o realizador insere elementos que se iriam tornar marcas características de todos os seus filmes, como a violência, uma narrativa nem sempre linear, uma banda sonora ecléctica, muito única e original, várias referências à cultura pop e um uso abusivo de profanidade.

Foi um filme de orçamento extremamente baixo, apenas um milhão e meio, que só se tornou possível devido ao envolvimento de Harvey Keitel enquanto actor e co-produtor.

E apesar de ter sido ignorado na altura do seu lançamento, com o sucesso que Pulp Fiction veio a ter depois, Reservoir Dogs viria a revisitado e aclamado criticamente não só como um dos melhores filmes de assaltos de sempre, mas também eleito o melhor filme independente de todos os tempos pela Empire Magazine.

Acho sempre curioso o facto de este filme ser considerado um dos melhores filmes de assaltos, já que o assalto em si é algo que nunca vemos.
Tudo o que recebemos é informação sobre o que aconteceu, mas só vamos realmente ver acontecimentos que ocorreram antes e depois.

A grande justificação para isto é essencialmente o facto de Tarantino não ter orçamento para poder filmar tudo o que poderia inicialmente querer.
O orçamento foi extremamente baixo, daí todo o filme se esforçar para ser contido a uma única localização, o guarda roupa foi fornecido gratuitamente e houve alguns actores que até usaram as suas próprias roupas, o armazém onde o filme se passa foi também utilizado para filmar cenas que se desenrolavam noutros locais e como não tinham dinheiro para parar o trânsito, uma das cenas em que um carro é roubado teve de ser filmada quando o semáforo estava vermelho.

Contudo, como já aconteceu em diversos outros filmes, a falta de orçamento por vezes é benéfica e obriga um realizador a ser mais imaginativo e adaptar a história de forma mais original e única, algo com que Tarantino já concordou em várias entrevistas.
Com a ausência do assalto, ele teve oportunidade de se focar completamente no conflito e no clímax do confronto entre todos os sobreviventes e de como cada um chegou àquela situação.

É inegável que existem algumas falhas lógicas, que em alguns momentos o filme tem mais estilo do que substância e que não é o melhor trabalho de Tarantino, contudo, tendo em conta que é a sua estreia e o início da sua carreira, aquilo que ele aqui criou e desenvolveu é absurdamente maravilhoso.

São poucos os realizadores que conseguem à sua primeira tentativa criar algo assim, a atenção ao pormenor é enorme, e a visão artística do realizador já aqui era muito afiada e com uma perspectiva muito sua, que ainda hoje mantém.

Tarantino contratou um paramédico para estar no set e garantir que a perda de sangue que uma das personagens estava a sofrer era fiel à realidade e gastou todo o dinheiro que tinha disponível para a banda sonora apenas para garantir os direitos de uma única música que ela achava ser indispensável para uma das suas cenas.
São pormenores que já deixavam bem claro o talento deste realizador.

Reservoir Dogs desenrola-se essencialmente num único armazém, mas Tarantino consegue recorrer a ângulos que sabem explorar o espaço de forma muito variada, seja por filmar a partir de um local diferente em várias das suas cenas ou apenas por mudar o seu foco ou a distância a que nos encontramos das personagens.
Isto cria não só a ideia inconsciente da cena ser diferente, mas também afecta o poder que certas falas e momentos irão ter, já que nuns iremos estar perto das personagens como se fossemos os seus confidentes, para de seguida já estarmos afastados ao ponto de sermos quase alguém que está escondido a ouvir aquilo que não devia.

Mas por mais que possa elogiar a realização, o trunfo do filme, tal como também o viria a ser em muitos outros trabalhos seus, é o argumento.

O argumento deste filme é do mais Tarantino que há.
Contém profanidade, a narrativa dá saltos temporais e o diálogo insere inúmeras referências à cultura pop da época, seja a discutir programas de televisão ou o significado de “Like A Virgin” da Madonna.

A ser escrito por outra pessoa, julgo que este tipo de elementos não iria conseguir manter o equilíbrio que mantêm aqui, aliás, acho que nem poderiam existir uns com os outros.
Mas Tarantino consegue introduzir todos eles, muitas vezes ao mesmo tempo, de forma muito natural e pura, e diálogos que poderiam ser aborrecidos ou simplesmente estranhos e absurdos, transformam-se em momentos ricos que ajudam o filme e o desenvolvimentos das personagens. São discussões curiosas e interessantes que nos dão uma perspectiva diferente sobre algo que poderíamos até nunca ter pensado ou questionado. São discussões “filosóficas” sobre assuntos que de outra forma nunca seriam tão aprofundados ou discutidos.

Por fim, e a ser a metafórica “cereja em cima do bolo” temos um elenco extremamente talentoso, que consegue interpretar as palavras de Tarantino da melhor forma possível e correr com elas criando verdadeiros tesouros cinematográficos.
Pode não ser um dos filmes mais citáveis que há, mas é certamente um daqueles com mais momentos icónicos que viria a influenciar muitos outros filmes ao longo dos anos.

Harvey Keitel, Tim Roth e Steve Buscemi são os três grandes actores deste filme.
Não quero necessariamente desvalorizar a forte contribuição que Michael Madsen tem, porque existem certamente momentos chave que só resultam devido a ele, mas sinto que os três actores que realmente enriquecem o filme são os que mencionei primeiro.

É inegável o talento de todos eles, já o era na altura e certamente que é hoje.
Contudo, sendo o primeiro filme de Tarantino, que tem uma visão tão sua e única em relação à forma como filma acção e a sua narrativa, havia aqui uma grande possibilidade de o elenco ser incapaz de transformar a sua obra em algo real.

Felizmente isso nunca acontece, e com estes três actores, conseguimos ter aqui a trindade perfeita entre aquele que fornece a acção e a intensidade, o drama e a emoção e os momentos mais leves e com subtil humor.
São três actores que jogam uns com os outros ao longo de todo o filme, uma espécie de dança perfeitamente coreografada, em que todas as falas são ditas com a intensidade perfeita, umas mais baixo e outras mais altas, mas todas elas a gritar bem claramente para o ouvido do público completamente deliciado e atento à magia que está a ver.

Reservoir Dogs alindo a realização e escrita de Tarantino a todas estas prestações de qualidade que o elenco principal fornece, tornou-se num autêntico clássico do cinema, cuja influência nunca será esquecida ou completamente ultrapassada.


Veredicto Final: 8/10

Tarantino tem aqui uma das melhores estreias possíveis, com um filme que alia um argumento intenso e rico a uma realização segura e imaginativa.
Há momentos em que o estilo sobrepõe um pouco a substância, contudo poderá ser discutível de que isso é algo propositado para o género de filme em questão.
Uma história interessante e bem estruturada, apoiada em grandes prestações de Keitel, Roth e Buscemi.

 

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