Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos (2006)

Título Original
Little Miss Sunshine

Género
Comédia

Realizadores
Jonathan Dayton e Valerie Faris

Argumentista
Michael Arndt

Elenco
Abigail Breslin, Greg Kinnear, Steve Carell, Alan Arkin e Toni Collette


Uma família determinada a levar a sua filha às finais de um concurso de beleza decide fazer a viagem na sua carrinha VW.


Sem querer tirar o merecido mérito aos realizadores e ao elenco, o argumento que Michael aqui criou e desenvolveu é tão puro e inteligente que seria impossível não sair daqui um bom filme.
Mas, aliado à equipa certa, que soube compreender e reconhecer o génio do material que tinham à sua frente, este filme não é apenas bom, é muito muito mais que isso.

Este foi um filme que demorou 5 anos para ser feito, o que é absolutamente ofensivo para qualquer espectador ao fim de ver a qualidade do material.
Eu sei que Hollywood é um negócio, e como tal o objectivo é lucro, contudo se um estúdio está disposto a perder milhões de dólares em blockbusters de qualidade extremamente questionável, gastar cerca de 5 ou 10 milhões para financiar um filme original e inteligente, não devia ser uma decisão difícil
Porque, sendo barato dará sempre lucro, e certamente que ganhará inúmeros prémios e prestígio, o que a longo prazo irá ajudar todos os envolvidos.

Olive Hoover (Abigail Breslin), uma menina de 7 anos, tem um objectivo: vencer um concurso de beleza.

O seu avô (Alan Arkin) viciado em heroína é o seu preparador, e quando ela ganha o lugar de finalista no concurso Little Miss Sunshine, toda a sua família irá fazer a viagem na sua carrinha VW de forma a realizar o sonho de Olive.

A viagem é tudo menos calma.

O seu pai Richard (Greg Kinnear) está com dificuldades em vender o seu programa motivacional de auto-ajuda, a sua mãe Sheryl (Toni Collette) está apenas a tentar manter a sua família feliz e unida; o seu irmão Dwayne fez um voto de silêncio e não irá falar até entrar na Força Aérea, e citando-o: “Odeia toda a gente.”; e o seu tio Frank terá de ir com eles ao fim de se tentar suicidar quando se apaixonou por um dos seus alunos e o amor não foi correspondido.

O primeiro, numa série de vários imprevistos, é a carrinha avariar a sua embraiagem, fazendo com que eles tenham sempre de a empurrar para ganhar velocidade suficiente para conseguir meter uma mudança superior.

É uma viagem difícil, sem esperança à vista para nenhuma das personagens, que se agarram ao sonho de Oliver e à alegria da pequena criança para se irem conseguir motivar a eles próprios.

Ao analisar esta sinopse é fácil compreender o género de filme cómico e emocional que vai ser, contudo nada prepara o espectador para o nível de profundidade e auto-descoberta que esta viagem vai criar não só nas personagens mas em si próprio.

Temos um orador motivacional falhado, uma menina fora de forma que sonha em vencer um concurso de beleza, um rapaz que faz um voto de silêncio e que lê Nietzsche e a personagem que se tentou suicidar é de longe a mais mentalmente estável neste grupo disfuncional.

Michael criou aqui um argumento extremamente poderoso que consegue balançar na perfeição todos os vários elementos que vai inserindo ao longo do seu desenvolvimento, e é absolutamente genial na forma como quebra tabus, preconceitos e estereótipos, ao mesmo tempo que consegue criar algumas críticas a certos aspecto da sociedade.

O argumento faz todo um trabalho fenomenal a explorar as neuroses das suas personagens, mas a grande descoberta do filme é Abigail Breslin.

Hoje, uma jovem de 21 anos que já voltou a surpreender em filmes como My Sister’s Keeper e Zombieland, mas na altura, com apenas 10 anos teve aquela que continua a ser, até ao momento, não só a melhor prestação da sua carreira mas também uma das melhores dadas por crianças no cinema.

Olive não é o elemento cómico nem o elemento dramático, ela é muito mais que isso, ela é o grande núcleo do filme.
Não se trata apenas de ser a personagem que motiva todo o enredo a desenvolver-se, mas é o motor que consegue manter todas estas personagens em constante movimento, em vez de pararem derrotadas pelo desespero e neuroses que assombram as suas vidas.

Esta personagem é uma mensagem subtil mas ao mesmo tempo bem directa, que estes concursos de beleza para crianças são um autêntico filme de terror que destroem tudo aquilo de belo que pode haver numa menina de 7 anos que tem toda a imaginação do universo na sua mente e todo o potencial do seu futuro por descobrir.
Abigail ataca este papel com toda a inocência, simpatia e determinação que a personagem exige.

Arkin, que interpreta aqui um avô com uma personalidade bem difícil de aturar, é o outro elemento que brilha neste filme.

E isso deve-se novamente a uma personagem muito bem escrita e ambígua na sua forma de ver o mundo e de ser. Ele é alguém que consegue ser extremamente mal educado e frio numa dada altura, para de seguida já ser a personagem mais carinhosa e compreensiva que pode haver, e Arkin captura tudo isso na perfeição.

Existe uma cena dele com Abigail, avô e neta, que é extremamente doce e maravilhosa de ver e rever, uma das cenas mais simples, puras e belas do cinema.

Este filme está incluído nos 1001 filmes que devem ser vistos antes de morrer, editados por Steven Schneider.

Agrada-me sabê-lo, mas não o vou comentar, porque para ser honesto esse tipo de listas é sempre muito relativo e em contínua actualização.
Mas, é sem dúvida um filme fenomenal, com um dos melhores argumentos que já tive o prazer de ver no grande ecrã, e um dos meus filmes preferidos.

Jonathan e Valerie realizaram aqui o seu primeiro filme, e é sem dúvida uma estreia de que se podem orgulhar.
Conseguiram capturar na perfeição a mensagem do argumento de Michael, e a forma como filmaram a história é abordagem perfeita, compreenderam que é um filme que vive desta família, e como tal são imensas as cenas em que a câmara se afasta e filma a família junta, unida.

Outros realizadores não iriam ter a capacidade artística de reconhecer o poder que é filmar a família unida várias vezes ao longo do filme, é que assim vemos o constante efeito que os acontecimentos têm em todas estas personagens, é notório o contraste de cena para cena.

Um filme que sucede em todos os aspectos.


Veredicto Final: 10/10

Um dos meus filmes preferidos, em que não há necessariamente nenhum efeito que eu queira apontar. Não é que seja o filme perfeito, porque isso não existe, mas é simplesmente bom demais para eu criticar negativamente o que quer que seja.
Tem um dos melhores argumentos que já tive o prazer de ver no grande ecrã, e é o primeiro que Michael escreveu.
Tem uma realização muito inteligente que sabe capturar a essência do argumento, e é o primeiro que Jonathan e Valerie realizaram.
Por fim, o elenco aceita completamente as personagens e abraça todas as suas neuroses na perfeição.

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