A Propósito de Llewyn Davis (2013)

Título Original
Inside Llewyn Davis

Género
Drama

Realizadores
Ethan e Joel Coen

Argumentistas
Ethan e Joel Coen

Elenco
Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake, Adam Driver e John Goodman


Uma semana na vida de um jovem cantor, à medida que ele navega o mundo da música folk em 1961, à procura da sua oportunidade.


“I don’t see a lot of money here.”

É com esta expressão que Bud Grossman (F. Murray Abraham), empresário do mundo folk, acaba por extinguir a já fraca chama das ambições musicais do nosso protagonista Llewyn Davis (Oscar Isaac).

E, poderá também ser a frase que mais marca este filme, que teve um péssimo desempenho nas bilheteiras, e apesar da grande aclamação crítica que recebeu na altura, e tem recebido desde então, acabou por ser criminosamente ignorado pelos Óscares em categorias que mereciam ser reconhecidas.

Não é o meu filme preferido dos Irmãos Coen, mas é um dos seus melhores trabalhos dos último anos, e mais um filme num longo currículo que demonstra o seu génio artístico e criativo.
O argumento do filme é praticamente inexistente, mas o diálogo, as prestações dos actores e toda a edição e forma como a cronologia da narrativa é construída, dão um poder e um simbolismo extremamente grandes à sua história, criando aqui um autêntico clássico do cinema.

Podemos ver Inside Llewyn Davis como um drama ou uma comédia trágica e negra, uma espécie de lição moral e cautionary tale sobre a ambição e procura da fama e reconhecimento no mundo da música, ou do entretenimento de forma geral.

Ao longo de uma semana seguimos Llewyn Davis, a personagem titular interpretada por Oscar Isaac, e vemos sempre tudo através da sua perspectiva, tal como acontece em Whiplash com Miles Teller, não temos aqui uma única cena em que Oscar não esteja incluído.

Ao longo do filme, e desta semana vamos ver as suas inúmeras tentativas em singrar neste mundo da música folk, as constantes recusas, o mundo frio, triste e sem cor em que ele vive, e o constante desespero e compreensão da realidade que vai crescendo com esta personagem.
Ele não é um herói, ele é um ser humano comum, com muitos defeitos e qualidades. E ao longo do filme isso vai ser demonstrado inúmeras vezes de várias formas diferentes.
O seu lado bom e o seu lado negro são demonstrados sempre numa espécie de contraste e reconhecimento do que ele está a fazer.

Uma mulher diz-lhe que está grávida, e ele rapidamente aceita as consequências e disponibiliza-se a pagar o aborto, apenas para depois ir pedir dinheiro emprestado ao marido dela.
Ele aceita tomar conta de um gato sobre o qual não tem qualquer responsabilidade, apenas para mais tarde o abandonar. Gato este que nunca sabemos se realmente morreu ou não, podendo ser uma espécie de segundo gato de Schrödinger.

Contudo, até mesmo nos momentos em que ele toma decisões obviamente erradas e egoístas, os Coen fazem questão de focar a cara de Llewyn por vários segundos, e ao vermos ali a personagem parada, o seu olhar, a sua expressão, a audiência apercebe-se de que ele próprio sabe que está a cometer um erro.
Llewyn pode ser um otário várias vezes ao longo do filme, mas ele tem perfeita noção disso, e apesar de saber que está a errar, está disposto a viver com esse peso.

A própria construção deste filme é extremamente única e original, não obedecendo àquela estrutura óbvia de três actos que vemos em todos os filmes.
E o final, aquilo que ele revela em relação ao início, é extremamente poderoso e simbólico.

O que temos aqui não é apenas um antes e um depois e o que acontece entre ambos os momentos, é algo mais profundo do que isso.
O que temos aqui é um ciclo vicioso, um ciclo de dor, desespero e perdição, que irá deixar a nossa personagem exactamente no mesmo local onde ela estava no início, mas irá deixá-la lá cada vez mais quebrada e desmotivada.
Llewyn será constantemente mastigado e cuspido fora ao longo de toda esta narrativa.

Roger Deakins, o cinematógrafo habitual dos Coen não estava disponível para este filme, mas Bruno Delbonnel faz um trabalho de grande qualidade. Todo o foco, a forma como as cenas e os takes estão construído e filmados estão incríveis. Contudo, onde ele realmente sucede de forma absurdamente genial é na iluminação e no contraste depressivo que dá a todas as cores. Nunca pensei que tanto castanho e branco num só filme pudesse ser tão belo e hipnotizante.

O génio dos irmãos Coen a nível de realização poderá nunca ter sido tão evidente.
Um filme que, como já disse antes, não tem grande enredo ou história, está realizado e construído com uma qualidade e arte que conseguem dar relevância, importância e grande significado a todas as falas, todas os piscares de olhos e a todos os silêncios entre as personagens.

Um outro aspecto importante para esta história ser contada da forma que foi, credível, realista e poderosa, passa pela música.
T Bone Burnett, o consultor e produtor musical do filme, faz aqui um trabalho incrível, tal como já tinha feito previamente em filmes como Crazy Heart ou Walk The Line, se bem que com responsabilidades diferentes.

Oscar Isaac tem aqui a prestação definitiva da sua carreira, e o facto de não ter sido nomeado para Óscar de Melhor Actor Principal é absolutamente vergonhoso.
Foi um ano com grandes prestações masculinas, e McConaughey seria sempre o justo vencedor, mas na minha opinião, Isaac merecia mais a nomeação que Dern, apesar de ter feito um óptimo trabalho em Nebraska.
Ainda assim, é inegável o talento de Oscar neste filme. Como já disse antes, é ele quem carrega este filme, entrando em todas as cenas.
Seja com a forma como entrega as suas falas, ou simplesmente com a sua expressão facial que diz tanto mesmo nos momentos de silêncio, é um daqueles papéis que nunca podemos imaginar outro actor no seu lugar, é dele, e sempre será.

Contudo, é aliado a todas as outras prestações, com destaque também para Carey Mulligan, que Oscar consegue entregar aqui um marco do cinema, que ficará para sempre na história ao lado dos melhores do género.

Não há defeitos que eu possa apontar, a não ser o facto de obviamente não ir agradar à grande maioria do público pelo facto de ser um filme lento e “aborrecido”, mas isso é o que acontece com muitos dos grandes clássicos.


Veredicto Final: 9/10

Um novo pico para a carreira dos irmãos Coen, que demonstram aqui o seu talento de forma inegável, realizando um argumento com enredo inexistente que iria falhar nas mãos de qualquer outra pessoa.
Inside Llewyn Davis é um filme que faz pensar, é lento e negro e não agradará a todos, mas é na sua essência um filme perfeito que coloca inúmeras questões, nenhum tão importante como:
Quando é que chega a altura de desistir?

 

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