Olhos Grandes (2014)

Título Original
Big Eyes

Género
Drama

Realizador
Tim Burton

Argumentistas
Scott Alexander e Larry Karaszewski

Elenco
Amy Adams, Christoph Waltz, Danny Huston, Krysten Ritter e Jason Schwartzman


Uma drama biográfico sobre a vida de Margaret Keane e a sua arte.
Retrata o seu crescente sucesso na década de 50 e todos os problemas legais com o seu marido, que na época de 60 ficou com o crédito de todas as obras que ela tinha pintado.


É surpreendente o número de histórias absurdas e inacreditáveis que a realidade consegue continuar a fornecer à ficção.
O passado está popularizado por acontecimentos que parecem tão irrealistas que custa a crer que aconteceram.

E apesar de Big Eyes não ser um filme de acção, ficção científica ou guerra, o acontecimento aqui retratado e os anos durante os quais ocorreu sem ninguém descobrir e sem a sua grande vítima, Margaret Keane, finalmente revelar a verdade, continua a ser algo incrível e inacreditável.

Em São Francisco, nos anos 50, Margaret (Amy Adams) era uma mulher a tentar sustentar-se a si e à sua filha sozinhas, ao fim de se divorciar, numa altura em que os direitos e o respeito pelas mulheres era ainda muito pouco.

Ela tinha o sonho de conseguir ser uma pintora aclamada e a forma de expressão artística que tinha era ao pintar crianças com uns olhos de tamanho fora do normal, uma espécie de metafórico espelho para a alma levada ao extremo, em que era possível ver a sua dor e sofrimento naquelas duas auréolas de tamanho superior.

É durante uma das suas exposições de ruas que ela conhece Walter Keane (Christoph Waltz), e deixa-se seduzir por toda a sua linguagem simpática, sonhadora e eloquente. Walter é realmente encantador em tudo o que diz e faz, um vendedor nato, capaz de impingir todas as suas filosofias clichés a qualquer um, especialmente à inocente e facilmente enganada, Margaret. E claro que aqui, para o espectador já familiarizado com o trabalho de Christoph, é normal que não acreditemos em nada do que ele diz e faz, mas para a personagem de Amy Adams, a situação é completamente diferente.

Quando o seu ex-marido tenta ficar com a guarda completa da sua filha, com a desculpa de uma mãe solteira não conseguir criar estabilidade financeira e emocional para uma criança, Walter convida imediatamente Margaret para se casarem, ao fim de um tempo absurdamente curto de se conhecerem, e ela aceita.

Agora casados, Margaret fica com o último nome do seu esposo, e começa a assinar todas as suas obras com o nome de Keane, algo que irá as pessoas a pensarem que foi Walter quem as pintou.
Quando confrontado com esta situação, e a ver a grande possibilidade de riqueza que poderá aqui existir, Walter assume as obras como suas, criando toda uma história fictícia por trás do motivo que o leva a pintar estas crianças.

E quando o sucesso financeiro começa a colidir com o falhanço crítico a respeito das suas obras, passando também por uma viagem emocional em que já não sabe bem quem ela é, Margaret decide lutar com Walter, e reclamar a sua vida e as suas obras.

Tim Burton não é o primeiro realizador em que eu pensasse para abordar este tema.
E apesar de ele não fazer um trabalho necessariamente mau, a forma como interpreta o argumento e algumas decisões criativas em apoiar a depressão de Margaret com fortes elementos visuais e psicológicos, prejudicam um pouco a experiência que o filme pretende oferecer ao seu público.

Scott e Larry desenvolveram aqui um argumento extremamente completo, que foca não só a vida de Margaret e a forma como Walter vai exercer domínio sobre ela e as suas obras, mas também a forma como a crítica reagiu a essas suas pinturas, nomeadamente John Canaday (interpretado pelo magnífico Terence Stamp), crítico do New York Times.

A questão que eles aqui colocam é:
Quando é que arte deixa de ser arte para ser apenas uma repetição vazia de um pintor extremamente limitado a um único tema e a uma única perspectiva?
E apesar dessa questão ser algo a que ele não decide responder, só o facto de deixar o público a pensar nela, já demonstra que este é um filme que tenta ser mais que uma simples biografia.

A grande falha de Burton é que não consegue focar todas estes ângulos com a mesma intensidade e respeito, acabando por tratar com coerência e relevância a forma como a crítica reagiu às obras de Margaret e o quão egoísta e arrogante Walter consegue ser, mas desleixando-se completamente no desenvolvimento e tratamento que é dado a Margaret.

Margaret não é apresentada como uma mulher fortemente submetida a um homem mau que abusa dela, é apresentada como alguém sem qualquer tipo de espinha e voz.
São várias as hipóteses dadas a Margaret para assumir autoria das suas obras, são várias as possibilidades em tudo isto poderia ter acabado e sido resolvido sem necessidade de se tornar uma polémica e controvérsia tão grande.

E eu compreendo que Burton quisesse prolongar a sua história e a batalha de Margaret não só com Walter mas também com ela mesma, mas o tratamento dado à personagem, ou melhor, à mulher a quem isto aconteceu, é simplesmente irritante e aborrecido.
Nunca há um momento em que o público sinta grande empatia com ela, sentimos apenas irritação por ela estar a deixar isto chegar a este ponto.

Walter é realmente egoísta e arrogante, mas nunca é apresentado como um homem abusador, violento ou maligno. Ou pelo menos não o é enquanto o filme tem um desenvolvimento natural, há uma cena em que ele tem um comportamento tão extremo e completamente inesperado que fica apenas forçado e a destoar de tudo o resto que vimos até àquele momento.
Quanto tanto, ele é comicamente sensível e egocêntrico, alguém com uma pele extremamente fina, que mais do que ser rico, quer ser reconhecido pelo seu talento, que nunca conseguiu ter.

Então, os momentos em que o filme parece querer ser de “horror” e excessivamente dramático e intenso, acabam por não ter o poder que seria suposto, porque isso só ocorre realmente naquele momento exagerado que mencionei anteriormente, que devido a ser tão absurdo se torna completamente irrelevante e incomodativo para a experiência do espectador.
E, se foi algo que realmente aconteceu, eu compreendo que o quisessem colocar no filme, o problema é que não desenvolveram a personagem de forma correcta a isso fazer sentido.

Dou, contudo, parabéns ao Burton na forma visual e extremamente colorida com que filma a sua película.
A cor é um elemento muito importante neste filme, mudando a sua palete à medida que o ambiente das suas cenas se torna mais leve ou mais pesado, mais cómico ou mais dramático.
Burton e o cinematógrafo Bruno Delmonnel, com quem já tinha colaborado em Dark Shadows, filmaram Big Eyes com grande pormenor e detalhe artístico, algo que respeita e homenageia bem o tema do filme.

Amy Adams fornece aqui outra prestação de qualidade, apesar de não ter uma personagem tão bem desenvolvida e detalhada como merecia.

Mas, da mesma forma que Walter rouba a arte de Margaret, Christoph rouba aqui o filme a Adams.

A prestação de Christoph é magnífica em todos os momentos em que ele se encontra no ecrã.
Seja nas alturas em que o vemos um pouco mais ameaçador e egoísta ou apenas nas alturas em que ele está tão desesperado e a afogar-se nas suas mentiras constantes.
É um actor que desde que o vi pela primeira vez em Inglourious Basterds, tem somado prestação magnífica atrás de prestação magnífica, e a nomeação de Steve Carell para o Óscar de melhor actor no lugar desta prestação de Christoph poderá ser um pouco questionável.


Veredicto Final: 6/10

Big Eyes é um bom filme, mas tendo em conta o seu argumento e as prestações que Amy Adams e Christoph fornecem, poderia, e devia, ser muito melhor.
Burton sabe filmar o filme com o respeito e a qualidade que ele merece, contudo não soube interpretar e abordar o argumento da melhor maneira, e não consegue focar igualmente os vários ângulos que o filme aborda, desleixando-se no mais importante: Margaret.

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