Crítica – Okja (2017)

Título Original
Okja

Género
Drama

Realizador
Joon-ho Bong

Argumentistas
Joon-ho Bong e Jon Ronson

Elenco
Tilda Swinton, Giancarlo Esposito, Jake Gyllenhaal, Seo-Hyun Ahn e Paul Dano


Seguimos a aventura de Mija, uma jovem que arrisca tudo para evitar que uma empresa extremamente poderosa capture e mate a sua melhor amiga – um estranho animal chamado Okja.


Protagonizado por Tilda Swinton e Jake Gyllenhaal e produzido pela companhia de Brad Pitt, a Netflix continua lançada nesta sua tentativa de conquistar o mercado do cinema da mesma forma que conquistou o das séries.

Desde Beasts Of No Nation em 2015 que a Netflix não fornecia ao seu público um filme tão actual, apelativo e com tanta qualidade, apesar de The Discovery também merecer algum mérito pelo tema que foca e a forma como o faz.

Ao fim de uma estreia polémica no Festival de Cannes, e de ter concorrido pelo prémio de Palma de Ouro, Okja já se encontra na plataforma online desde 28 de Junho.

O tema deste filme será tão apelativo para algumas pessoas como absolutamente horrível para umas tantas outras.

É um filme que foca a forma com os animais são explorados, abusados, mal-tratados e abatidos para o nosso alimento. E apesar de Joon-ho ter inserido alguns momentos mais leves e cómicos para facilitar a digestão do seu filme, continuam a ser inúmeros os momentos que criam grande desconforto e nos tocam de uma forma extremamente forte e dolorosa.

Ainda assim, é exactamente por isso que o filme merece ser visto. Não devemos fugir dos assuntos e dos temas difíceis, e para ser honesto, os momentos em que o filme tenta ser um pouco mais leve e cómico são os únicos que realmente o prejudicam. São esses os momentos que nos fazem um pouco desligar do filme e da sua mensagem, e poderiam ter sido facilmente evitados, apesar de conseguir compreender a necessidade que sentiram em colocá-los.

Contudo, apesar da mensagem que trata, o núcleo deste filme é a relação de Mija com Okja.
É a amizade entre esta criança e a criatura que realmente carregam o filme do início ao fim, e juntas, fornecem as melhores prestações que este filme tem, ainda que Okja seja apenas um produto de CGI de elevada qualidade.

Seo-Hyun, a jovem estrela deste filme, já tem vindo a construir a sua carreira desde 2009, mas este será sem dúvida o trabalho que a irá catapultar para novas ofertas e para um renovado reconhecimento e respeito na indústria.

Sempre que a grande protagonista de um filme é uma criança, todos correm um grande risco, porque na grande maioria das vezes elas falham em transmitir as emoções correctas, devido ao facto de simplesmente não compreenderem que emoções são essas, ou o que o argumento realmente significa e implica para um dado momento.

Mas com Seo, a situação é completamente diferente.
Ao longo de toda a duração de Okja, Seo irá exprimir todas as emoções possíveis e ainda mais algumas, conseguindo manobrar facilmente a dolorosa aventura que a sua personagem Mija irá enfrentar na tentativa de se reunir com a sua melhor amiga.
É igualmente capaz nos momentos frenéticos de acção e perseguições e naqueles mais tocante e emocionais, especialmente no final do filme.

Por sua vez, aquilo que o departamento de efeitos especiais aqui conseguiu criar com Okja é absolutamente divinal.

Sendo este um filme que ficava dependente da relação de Mija com Okja, era extremamente importante que o animal parecesse e se sentisse como algo real e possível.
E desde o design ao seu comportamento, Okja é um ser extremamente adorável, forte, corajoso, emocional e realista. É impossível não sentir por Okja o amor que Mija sente, é impossível não nos preocuparmos com ele e sofrermos com o seu sofrimento e aprisionamento.

E aqui, terei de aplaudir também o trabalho do realizador e argumentista Joon-ho.

Ao fim de já ter ficado fã do seu trabalho com o fenomenal, e criminosamente desvalorizado, Snowpiercer, ele volta aqui a surpreender-me uma vez mais, com a forma como consegue criticar a sociedade capitalista e consumidora de forma tão inteligente e satírica, ao mesmo tempo que desenvolve todas as suas personagens de forma tão detalhada e meticulosa.

Eu já gostava de Mija e Okja com a simplicidade e criatividade da edição do primeiro trailer, contudo, o início deste filme é algo que me apanhou de surpresa.
A forma como Okja começa, os seus primeiros 15 minutos, são contados de forma tão inocente, inteligente e atenciosa que é praticamente impossível para qualquer membro da audiência não ficar derretido com a relação entre estas duas personagens tão carismáticas e carinhosas.
E a partir desse momento, estamos completamente agarrados a esta viagem emocional, passando por todos os seus percalços até ao clímax final.

Não é um filme perfeito, o argumento tem algumas falhas de consistência e continuidade.
Contudo, a maior falha de lógica neste argumento, e aquilo que a audiência simplesmente terá de aceitar e ignorar é a seguinte questão:
– Porque é que uma empresa iria criar um animal cujo único propósito é servir de alimento, e desenvolvê-lo de forma a ele ser tão inteligente, perspicaz e carinhoso?

Isso foi a questão que me incomodou um pouco ao longo de todo o filme.
Porque eles teriam de saber que ao colocar esse tipo de características num dado animal, as pessoas iriam inevitavelmente criar alguma espécie de laço e ligação. Seria muito mais simples torná-lo em algo um pouco mais vegetativo, cuja únicas sinapses mentais serviriam apenas para comer e beber.

Mas, se fizessem isso, tudo isto que acontece no filme com Okja e Mija teria sido evitado e é aí que o argumento encontra a sua grande falha lógica, mas é algo que pode facilmente ser ignorado a proveito do filme de inegável qualidade que nos é aqui disponibilizado.

A nível das restantes prestações, todos conseguem fornecer um óptimo trabalho, especialmente Tilda Swinton que tem aqui um papel duplo ao interpretar duas irmãs bem diferentes mas igualmente maléficas e sem escrúpulos, apesar de apenas uma querer reconhecer e aceitar o género de pessoa que realmente é.

Infelizmente, Gyllenhaal fornece aqui a sua primeira prestação, desde há imenso tempo, que me deixou um pouco desapontado.

Não é que a prestação seja má, mas é exagerada, ele encontra-se num registo diferente de todos os outros actores.
Swinton também exagera, mas continua a ser um pouco mais contida, Gyllenhaal tem aqui alturas em que parece uma espécie de cartoon ou caricatura, e não um ser humano real.
Se ele, ou o realizador, tivessem imposto alguns limites ao nível de excentricidade da sua personagem, este seria mais uma grande adesão ao currículo fenomenal que o actor tem andado a criar recentemente, mas assim sendo, é algo que passa ao lado do pretendido.


Veredicto Final
8/10

Ignorando uma falha lógica no argumento e a prestação mal calculada de Gyllenhaal, Okja é um filme de qualidade que merece realmente ser visto.
E não merece ser visto apenas pela sua mensagem crítica, mas sim pela relação credível e tocante que é desenvolvida entre Mija e Okja.
Joon-ho desenvolveu aqui uma história igualmente dolorosa e emocionante, que nos vai transportar numa montanha russa de emoções até um final que, apesar de não poder agradar a todos, é compreensivelmente a única conclusão possível.

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4 opiniões sobre “Crítica – Okja (2017)

  1. Não creio que seja uma falha lógica, é apenas uma forma de demonstrar aquilo que, realmente, acontece. Os animais que servem de alimentação são, todos eles, dotados de inteligência, entre outras características que são apenas ignoradas, de forma a facilitar o seu consumo.

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    1. Também é uma boa perspectiva, e até certo ponto, necessária para aumentar a mensagem do filme.
      Contudo, é uma questão que não deixa de ser colocada, podendo ser algo que eles queriam evitar.
      Mas, admito que essa é uma perspectiva interessante que pode até certo ponto justificar essa decisão.

      Gostar

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