Crítica – Shot Caller (2017)

Título Original
Shot Caller

Género
Crime

Realizador
Ric Roman Waugh

Argumentista
Ric Roman Waugh

Elenco
Jon Bernthal, Nikolaj Coster-Waldau, Lake Bell, Benjamin Pratt e Jeffrey Donovan


A jornada de um homem desde uma vida normal até uma de crime, e as escolhas que nos prendem e alteram para sempre.


Waugh cria aqui a simbiose perfeita entre Felon e Snitch, realizando aquele que é provavelmente o seu melhor filme até ao momento.

Em Felon ele foca a forma como o aprisionamento pode alterar o psicológico de qualquer pessoa, e em Snitch, baseado numa história verídica, ele explora o tráfico de droga.

Em Shot Caller temos um híbrido entre essas duas narrativas.
Nikolaj interpreta Jacob, um homem de negócios que tem a vida aparentemente perfeita: mulher bonita, filho que o adora, boa relação com os colegas de trabalho e uma grande promoção profissional está no seu futuro.
Até que a vida, fazendo das suas, o coloca na prisão por homicídio involuntário.

E é neste momento que o filme, e a própria personagem, se transformam em algo completamente diferente.
Jacob passa a ser tratado por Money, e ele já não é o homem de outrora, é alguém mais violento, perigoso e sem escrúpulos.

Este é um filme muito interessante, e que infelizmente toca numa ferida bem actual: o sistema prisional, particularmente o americano.

E fá-lo colocando a seguinte questão:
Somos presos por ser criminosos ou é a prisão que nos torna em criminosos?
É realmente um ponto de vista peculiar mas nada irracional, já que existem vários estudos psicológicos que realmente contestam a capacidade do sistema prisional conseguir efectuar qualquer tipo de reabilitação aos seus encarcerados.

A prisão é dura, isso é inegável.
Mas o que isso faz não é necessariamente motivar aqueles que passam por lá a afastar-se do crime, torna-os é por vezes em alguém pior que antes.
Um homem bom dificilmente sobrevive num ambiente daqueles, ele precisa de se transformar num animal diferente.

Com isso dito, e apesar de realmente essa questão ser tocada por Waugh, ele acaba por não a desenvolver em todo o seu potencial, optando invés disso por transformar a segunda metade de Shot Caller no típico filme de tráfico e crime, ou seja, em algo absolutamente previsível e cliché.

A partir do momento em que a acção começa a escalar, e o drama passa para segundo plano, o filme perde ritmo e ao invés da violência injectar a adrenalina que o realizador esperava, ela quebra o momentum.
A violência é necessária neste tipo de filmes, mas tem de ser salteada com moderação.

No fundo, Waugh comete aqui um erro semelhante a Snitch, ele perde a noção de que tipo de filme é que está a realizar.

Ele não é um mau realizador, reconhece-se facilmente o seu talento em qualquer um dos filmes que realiza, e é louvável o facto de não tentar humanizar demasiado a sua personagem ou tentar criar desculpas para todos os crimes que irá cometer.
Tem um olho muito atento a todos os pormenores e à forma como uma prisão funciona e até mesmo como todos se comportam,

Onde demonstra mais sucesso, contudo, é na forma como editou e construiu cronologicamente o seu filme.
As várias analepses e saltos cronológicos que colocou em Shot Caller são realmente benéficos para o produto final, enriquecendo não só a história mas também a empatia e “compreensão” que teremos pela personagem principal e o seu percurso e transformação.

É um método que nem sempre resulta, e são vários os filmes que ficam apenas mais confusos, mas aqui o resultado final é sem dúvida mais claro.

Ainda assim, e com todas essas falhas, Shot Caller é um filme acima da média, que se destaca por uma história dura, crua mas surpreendentemente tocante e emocional.
E deve grande parte disso à forma assombrosa com que Nikolaj se entrega ao seu papel.

Esta é a melhor prestação que alguma vez vi deste actor, com esse troféu a pertencer previamente ao filme norueguês Hodejegerne.
Ao longo do filme conseguimos ver de forma bem clara as transformações que a sua personagem sofre, e Nikolaj consegue capturar todas as nuances das  várias “personagens” que interpreta com uma intensidade muito submissa e controlada, que contrasta muito bem com a violência que o rodeia.

A sua barba é praticamente uma personagem secundária, desde Michael Shannon em The Iceman que não via uma só personagem com tantos estilos diferentes.

Dou também destaque a Jon Bernthal e Jeffrey Donovan, dois actores extremamente talentosos que me surpreenderam com a sua presença neste filme, algo sempre agradável.

Veredicto Final
7/10

Waugh tem aqui o seu melhor trabalho como realizador até ao momento, mas torna-se frustrante pelo melhor que podia ter sido.

A nível de realização e edição ele consegue fazer um trabalho fenomenal, é no argumento que as coisas falham um pouco. Esquecendo a dada altura que está a realizar um thriller, o nível do drama é esquecido em benefício de uma acção exagerada que não beneficia o filme ou a história, antes pelo contrário, torna-a previsível.

Ainda assim, continua a ser um filme acima da média com uma prestação incrível por parte de Nikolaj Coster-Waldau.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s