Crítica – The Punisher: 1ª Temporada (2017)

Título Original
The Punisher

Género
Acção, Aventura, Crime

Duração
53 minutos

Criador
Steven Lightfoot

Elenco
Jon Bernthal, Amber Rose Revah, Ebon Moss-Bachrach, Ben Barnes e Jaime Ray Newman

Sinopse
Ao fim do homicídio da sua esposa e dos seus filhos, o veterano Frank Castle transforma-se num vigilante sedento de vingança e justiça, conhecido como Punisher.


“One Batch, Two Batch, Penny and Dime.”

Ao fim de três adaptações cinematográficas falharem em retratar fielmente a personagem de Frank Castle e tudo aquilo que ela significa, Jon Bernthal fornece aqui a versão definitiva daquilo que é esta personagem.

Depois da sua aparição em Daredevil, The Punisher consegue preencher todas as lacunas sobre a “origem” de Frank Castle, ao mesmo tempo que nos mostra a sua situação actual e aquilo que o futuro lhe poderá reservar.

O seu primeiro episódio é simplesmente magnífico.

Prestações dos actores à parte, o motivo pelo qual a série sucede onde os filmes falharam afirma-se principalmente no argumento e na interpretação de quem Frank Castle é.

Eu vou ignorar o filme de 1989 com Dolph Lundgren, porque é o típico filme de acção dos anos 80 como tantos outros e de Punisher só tem mesmo o nome.
Assim, sobram as adaptações de 2004 com Thomas Jane e a de 2008 com Ray Stevenson.

A primeira falha porque Frank é retratado de forma excessivamente simpática.
Esta é uma personagem que precisa de ser apresentada sem os seus argumentistas tomarem partido em relação a ela, e a decisão de ela ser apoiada, ou não, terá de ficar a cargo do público.
Nesta versão essa escolha nunca existe, Castle é um autêntico escuteiro, que decide vingar-se de um grupo de criminosos ao fim de perder a sua família, e ainda assim, demonstra continuamente alguma compaixão por várias personagens.
É uma boa película de acção, mas não é The Punisher.

A segunda tentou corrigir isto com uma dose excessiva de gore e violência, mas uma vez mais, continuaram a fugir da ambiguidade que caracteriza Frank.
Ele aqui é mais violento e assustador, e isso demonstra melhorias, mas o resto da história segue exactamente as mesmas batidas, com ele a combater criminosos tão repugnantes e odiáveis que é impossível não ficar do seu lado.

A série, os argumentistas e até mesmo Bernthal compreendem algo muito importante, e que na minha opinião é o ponto de partida que foi estabelecido já na segunda temporada de Daredevil:
Castle não é um herói.

É um soldado que teve de fazer coisas bastante questionáveis, mas fê-las por achar que estava a servir o seu país.
Quando perde a sua esposa e os seus filhos ele decide vingar-se, e ao fim disso, decide começar a espalhar a sua própria justiça pelo resto dos criminosos que habitam Nova Iorque.

Haverão pessoas que irão apoiar este tipo de iniciativa e comportamento, achando que todos estes criminosos merecem morrer.
Haverão outros que acham que ele não tem o direito de ser juiz e carrasco, que isto não é justiça e com este comportamento ele não é melhor do que os criminosos que abate.

Castle é um anti-herói.
E ele tanto irá fazer coisas que gostamos e apoiamos como a seguir poderá fazer algo excessivamente violento e repugnante que nos deixa um pouco assustados e reticente no apoio que acabámos de lhe dar no momento anterior.

A série apresenta a personagem com todos estes aspectos bem detalhados e aprofundados, sem fugir do stress pós traumático em que ele se encontra, da moralidade do que faz e do próprio conflito interior que ele sente em relação a quem é e no que se tornou, por mais que ele tente ignorar essa sua parte da sua consciência.

Em relação a esta primeira temporada, só tenho coisas boas a dizer, e os negativos que me saltaram mais à vista e incomodaram estão quase todos relacionados com a sua duração.

Com 13 episódios a durarem todos cerca de uma hora, a temporada é excessivamente longa.
Há material que poderia ter sido cortado e editado de forma a atingirem apenas 10 episódios.

Existem três aspectos que deviam ter sido mais contidos:
– Narrativa secundária que envolve o stress pós traumático dos soldados que regressam a casa e o uso excessivo de armas na América;
– Família de Micro;
– Família de Castle.

Todos estes temas são cruciais para a história principal, cada um com a sua relevância particular.

O primeiro é necessário para dar mais profundidade e relevância social à série, tocando em temas actuais e tornando-a tópico de discussão.
O segundo é necessário para compreendermos a situação de Micro e de que forma é que ele está a ser afectado;
O terceiro é necessário para nos relembrar constantemente daquilo que Frank perdeu e tentar justificar aquilo em que ele se tornou.

Eu compreendo a sua necessidade e compreendo a presença de todos eles.
O grande problema é que não houve moderação na forma como o fizeram e introduziram na narrativa principal, e assim sendo, para além da duração excessiva desta temporada, todos estes extras prejudicam o momentum e adrenalina que a história tenta criar.

Sempre que a câmara corta para um destes três tópicos a série começa a morrer, a acção e o interesse caem a picos em vez de o fazerem de forma mais moderada, muitos dos momentos que apresentaram são apenas fillers que voltam a reforçar assuntos que já tinham sido discutidos e revivam cenários e imagens que o espectador já está farto de ver.

Estes aspectos negativos podem parecer pouco ou algo discutível para quem, como eu, viu a série toda e gostou.
Mas garanto que irá incomodar grande parte da audiência que desistirá a meio por se sentir aborrecida e achar que a séria não fornece o tratamento que procuravam para a personagem e o tema que retrata.

E isso apesar de infelizmente ser compreensível, é também injusto.

É injusto porque esta primeira temporada de The Punisher é das melhores que passaram recentemente pelos nossos ecrãs, e a melhor estreia possível para a personagem.
Sucede em argumento, realização, banda sonora, acção e prestação por parte do incrível elenco que conseguiu aqui reunir.

A realização da série, o tom que estabelecem e a cinematografia andam sempre de mãos dadas entre si.
E ao contrário de Luke Cage, Jessica Jones e Iron Fist, esta é a primeira vez que sentimos que estamos dentro do mesmo mundo, e cidade, de Daredevil.

É tudo muito semelhante, e se virem isto ao fim da segunda temporada de Daredevil, terão imediatamente uma sensação de familiaridade e continuação fluida e lógica.
A imagem mantém sempre uma certa saturação e contraste que mantêm na mente da audiência o ambiente um pouco depressivo e negro em que a história decorre, e a cinematografia, da forma que foca e filma as personagens, especialmente a acção, nunca se esquece de frisar aquilo que o realizador tenta afirmar.

Desde John Wick que não via alguém a manobrar uma arma da forma que Berenthal o faz aqui, o que leva o entretenimento e a agressão dos tiroteios para um nível muito superior.

Há umas personagens cuja contribuição se torna um pouco mais forçada e aborrecida que outras, particularmente aquelas que pertencem aos três momentos que mencionei antes e que deveriam ser mais limitados.
Mas, de uma forma bem geral, todos os actores fornecem prestações extremamente talentosas que retratam de forma apropriada a personagem que interpretam e aquilo que ela significa não só para a personagem mas para Frank e para a sua história.

Há no entanto, três actores que sinto necessidade de discutir de forma independente: Jon Bernthal, Ebon Moss e Ben Barnes.

Bernthal é o Punisher, não há volta nenhuma a dar, e qualquer hesitação que eu tivesse desapareceu quando o vi em Daredevil, e as minhas certezas só se reafirmaram aqui.
Ele consegue ser realmente intimidador nas cenas mais agressivas e violentas, dando grunhidos animalescos à medida que tortura ou é torturado, sendo sempre uma força de destruição inabalável. Mas é nos momentos mais dramáticos, tocantes e emocionalmente dolorosos que ele realmente se entrega, e independentemente daquilo que o espectador sente em relação ao que Castle faz, é impossível não sentir pena e empatia por ele.
Bernthal é um actor extremamente talentoso que tem melhorado constantemente em todos os seus trabalhos, mas até ao momento, este é realmente o seu papel definitivo e aquele que eu espero que o eleve ainda mais.

Ebon Moss é um actor mais desconhecido, e um que não me recordo de ver em outros projectos.
Mas, ao lado de Bernthal, fornece uma das prestações mais poderosas e emocionais da série.
Micro, tal como Castle, é alguém que devido a conspirações políticas se viu forçado a estar sem a sua família, ainda que estes continuem vivos. É nesta perda “comum”, que eles se encontram e apoiam mutuamente, um precisa do outro para alcançar o seu objectivo, ainda que demorem a ficar na mesma página.
É uma relação importante para a série, eles precisavam de ter química para vender esta parte da narrativa, caso contrário a série iria ficar muito prejudicada.
Juntos, Moss e Bernthal, conseguem fornecer tanto os momentos mais cómicos da série como os mais emocionais e dramáticos.
E Moss é um actor com a qualidade rara de dizer muito com um simples olhar. Ele é genial durante toda a temporada, em tudo o que diz e faz, mas é quando não diz e faz nada, naqueles momentos em que está apenas sentado em frente ao monitor, que as suas qualidades realmente gritam por atenção. É alguém que consegue transmitir dezenas de emoções numa simples expressão.

Por fim, Ben Barnes.
Apesar do seu trabalho com a personagem de Russo ser louvável, a sua presença incomodou-me um pouco durante a série toda, e fez-me sair do ambiente sempre que aparecia em cena.
Não culpo o actor, mas sim a decisão de o colocarem neste papel.
Sim, o actor para Russo necessita de ser charmoso para aquilo que lhe acontece no final ter algum peso e significado, mas deviam ter arranjado alguém mais velho, ou pelo menos, alguém que aparentasse ser mais velho.
Porque apesar da idade de Barnes e da barba que colocaram na personagem, ele continua sempre com um aspecto infantil. Ele esforça-se e dou-lhe mérito por isso, mas não tem peso nem gravitas para interpretar a personagem que lhe foi oferecida.

Antes de encerrar, e compreendo que já me alonguei, tenho de discutir a violência da série.

The Punisher, é uma série extremamente violenta e gráfica, algo que não será surpresa para quem está minimamente familiarizado com a personagem ou com Daredevil.

Contudo, é necessário deixar bem claro que não há nenhum momento na série em que a violência seja gratuita.
É um paradoxo interessante que uma das séries de acção mais violentas dos últimos tempos, é aquela que pede esta violência e este confronto, é aquela que grita constantemente por mais.

A violência é algo fulcral para a personagem de Castle, ao ponto de ser ela própria uma personagem secundária.
Ainda assim, sempre que surge, é alimentada calmamente, tem um progresso, e apesar do seu clímax ser realmente explosivo, o espectador irá sentir que foi merecido.


VEREDICTO FINAL
✭✭✭✭✭✭✭✭
(8/10 )

Frank Castle tem aqui a melhor estreia possível para a sua personagem, numa série carregada de acção, mas que ainda assim sabe fornecer profundidade e uma narrativa bem desenvolvida, levando o seu tempo para desenvolver a história e as personagens.

Bernthal e o resto do elenco fornecem prestações dignas e com qualidade, e apesar de haver algumas personagens que têm demasiado tempo de ecrã, e Ben Barnes não ser a escolha mais indicada para o seu papel, nunca são aspectos que estraguem a visualização de Punisher.

O maior aspecto negativo serão os 13 episódios, cortando muito material extra e repetitivo, seria possível dar o número mais redondo e menos massudo de 10 episódios.
Julgo que seria possível para o realizador cortar estas 3h e ainda assim fornecer o mesmo desenvolvimento e profundidade que os argumentistas pretendiam.

Ainda assim, é algo que recomendo, e fico ansiosamente à espera de uma segunda temporada.

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